Resposta curta
Sim, muitas foram. No século VIII, a lei de Carlos Magno para os saxões conquistados mandava a morte para todo saxão que se escondesse para fugir do batismo. Em 1502, a Espanha mandou todo muçulmano de Castela sair, em condições que tornavam a saída impossível. O batismo era o único jeito de ficar, e um grande historiador chama isso de conversão forçada. Nas Américas, os conquistadores espanhóis liam em voz alta uma exigência de que os povos aceitassem a Igreja como senhora do mundo. Se recusassem, enfrentariam a guerra e a escravidão. Em 1685, a França mandou que todo africano escravizado nas suas ilhas americanas fosse batizado católico. Nas Filipinas, onde o islã tinha se espalhado pela pregação, um governador espanhol mandou em 1578 prender os pregadores muçulmanos e queimar as casas onde pregavam. O Alcorão diz: “Não há compulsão na religião!”
Explicação completa
Os saxões: o batismo ou a morte
Carlos Magno, rei dos francos, lutou contra os saxões pagãos durante uns trinta anos. A sua lei para as terras conquistadas deles mandava a morte para quem queimasse uma igreja, comesse carne na Quaresma por desprezo ao cristianismo ou queimasse os mortos segundo o costume pagão. O seu oitavo capítulo foi mais longe. Todo saxão que se escondesse para fugir do batismo, e “quiser continuar pagão, seja punido com a morte”.
A lei de Carlos Magno para os saxões conquistados manda a morte para quem queimar uma igreja, comer carne na Quaresma por desprezo ao cristianismo ou queimar os mortos segundo ritos pagãos. O capítulo 8 decreta: se alguém da raça dos saxões, daqui em diante escondido entre eles, quiser se esconder sem batismo, e desdenhar vir ao batismo, e quiser continuar pagão, seja punido com a morte.
Os muçulmanos da Espanha: sair ou ser batizados
Quando a Espanha conquistou o reino muçulmano de Granada, os seus termos de rendição prometeram aos muçulmanos as suas mesquitas e a sua própria lei. Dez anos depois, um decreto real mandou todo muçulmano dos reinos de Castela e Leão sair até o fim de abril. Os meninos com menos de catorze anos e as meninas com menos de doze deviam ficar. As condições tornavam a saída impossível. Os exilados só podiam embarcar nos portos do extremo norte. Não podiam ir nem aos reinos vizinhos nem a nenhuma terra muçulmana próxima, sob pena de morte. O historiador Henry Charles Lea explica por que o decreto não nomeava outra escolha. Era para que o batismo, o único que podia salvá-los, pudesse ser chamado voluntário. Ele intitula a passagem “Conversão forçada em Castela”.
Expõe os termos de rendição pelos quais Fernando e Isabel receberam os muçulmanos de Granada como súditos, prometendo-lhes as suas terras, as suas mesquitas e a sua própria lei. Descreve como as conversões forçadas em Granada seguiram os métodos arbitrários de Francisco Jiménez de Cisneros, arcebispo de Toledo, e como o decreto real (pragmática) de 12 de fevereiro de 1502 mandou todos os mouros saírem dos reinos de Castela e Leão até o fim de abril, retendo os meninos com menos de catorze anos e as meninas com menos de doze, em condições que tornavam a saída impossível: só podiam embarcar nos portos da Biscaia, não podiam ir a Navarra, a Aragão, aos turcos nem aos mouros da África, e enfrentavam a morte se ficassem. Lea diz que o édito não oferecia alternativa declarada, de modo que a conversão, o único modo de escapar dele, podia ser chamada voluntária; ele intitula a passagem “Conversão forçada em Castela”.
As Américas: submeter-se à Igreja ou enfrentar a guerra
Os conquistadores espanhóis liam em voz alta aos povos que encontravam um documento chamado Requerimiento, a Intimação. Ele os mandava aceitar a Igreja como senhora de todo o mundo. Deviam aceitar o Papa, e em seu nome o rei e a rainha da Espanha, como seus senhores, e deixar os sacerdotes pregar-lhes. Dizia que não seriam obrigados a se tornar cristãos. Mas, se recusassem ou demorassem, declarava: “entraremos poderosamente no vosso país e vos faremos guerra de todos os modos”. Eles, as suas mulheres e os seus filhos seriam tomados como escravos.
Uma intimação lida pelos conquistadores espanhóis aos povos das Américas. Apoiada na doação das suas terras pelo Papa aos reis da Espanha, exigia que reconhecessem a Igreja como senhora de todo o mundo, o Papa, e em seu nome o rei e a rainha da Espanha como seus senhores, e que deixassem os sacerdotes pregar-lhes. Dizia que não seriam obrigados a se tornar cristãos. Mas, se recusassem ou demorassem, declarava: “entraremos poderosamente no vosso país e vos faremos guerra de todos os modos”, tomaremos a vós, às vossas mulheres e aos vossos filhos e os faremos escravos, e diremos que as mortes e perdas que se seguirem são culpa vossa.
Os africanos escravizados: batizados por lei
Em 1685, Luís XIV da França publicou o Code Noir, a lei da escravidão nas ilhas americanas da França. O seu segundo artigo manda que todos os escravos das ilhas sejam batizados e instruídos na religião católica. Os colonos que compravam africanos recém-desembarcados dos navios negreiros tinham de comunicá-los dentro de uma semana, para que fossem batizados. Os escravizados não eram consultados.
O édito real francês que regia a escravidão nas ilhas americanas da França. O seu segundo artigo manda que todos os escravos das ilhas sejam batizados e instruídos na religião católica, apostólica e romana, e que os colonos que compram africanos recém-chegados os comuniquem dentro de uma semana ao governador e ao intendente, que devem mandá-los instruir e batizar.
As Filipinas: o islã pela pregação, depois a guerra contra ele
O islã chegou ao sul das Filipinas pela pregação, e não pela conquista. Najeeb Saleeby escreveu uma história publicada em Manila em 1908. Ele fala de um pregador chamado Makdum, que chegou a Sulu por volta de 1380 e fez convertidos. Fala de Abu Bakr, que chegou por volta de 1450, casou na família governante e ensinou a religião e a lei. Saleeby diz que a mudança foi lenta e gradual, mas real. Isso corrige, diz ele, a antiga crença de que o islã chegou ali pela espada. A Espanha chegou nos anos 1560. Em 1578, o governador Francisco de Sande enviou uma expedição armada a Sulu. As suas ordens eram proibir que se admitissem mais pregadores “da doutrina de Maomé”, “prendê-los e trazê-los diante de mim”, e “queimar ou destruir a casa onde aquela doutrina maldita tinha sido pregada”. Saleeby lista entre os objetivos da Espanha “arrancar a ‘doutrina maldita’ de Maomé e converter os de Sulu à religião cristã”. Saleeby diz que a expedição deu início a um longo estado de guerra entre Sulu e a Espanha.
Diz que o islã chegou a Sulu por meio de pregadores: Makdum, que chegou por volta de 1380 e fez convertidos em muitos lugares, e Abu Bakr, que chegou por volta de 1450, casou com a filha do Raja Baginda e ensinou a religião e a lei, de modo que o povo abandonou os seus antigos deuses numa conversão lenta e gradual, mas real; Saleeby diz que isto corrige a opinião antes sustentada de que o islã foi introduzido ali pela espada. Dá as instruções do governador Francisco de Sande, de 1578, para a expedição contra Sulu: ordenar aos de Sulu que não admitissem mais pregadores da doutrina de Maomé; descobrir quem a pregava, e “prendê-los e trazê-los diante de mim”; e queimar ou destruir a casa onde aquela doutrina maldita tinha sido pregada. Saleeby lista entre os objetivos reduzir Sulu a Estado vassalo, cobrar tributo e “arrancar a ‘doutrina maldita’ de Maomé e converter os de Sulu à religião cristã”, e diz que a expedição deu início a um estado de guerra entre Sulu e a Espanha.
| Onde | O que lhes diziam |
|---|---|
| Saxônia, século VIII | Todo saxão que se escondesse para evitar o batismo devia ser punido com a morte. |
| Castela, 1502 | Todo muçulmano devia partir, em condições que tornavam a partida impossível: só o batismo podia salvá-los. |
| As Américas | Aceitar a Igreja como senhora do mundo, ou enfrentar a guerra e a escravidão. |
| As ilhas americanas da França, 1685 | Todo africano escravizado devia ser batizado e instruído na religião católica. |
| Sulu, nas Filipinas, 1578 | Os pregadores muçulmanos deviam ser presos, e as casas onde pregavam, destruídas. |
O Alcorão diz que não há compulsão na religião.
Não há compulsão na religião
O Alcorão proíbe impor a fé a quem quer que seja: “Não há compulsão na religião! Com efeito, distingue-se a retidão da depravação.” Pergunta ao Profeta (ﷺ): “compelirás tu os homens, até que sejam crentes?” Diz-lhe que a sua tarefa é só lembrar, e não dominar as pessoas. Uma fé imposta a alguém não é fé nenhuma, e o Alcorão deixa cada pessoa escolher.
“Não há compulsão na religião! Com efeito, distingue-se a retidão da depravação. Então, quem renega os ídolos e crê em Allah, com efeito, ater-se-á a firme alça irrompível. E Allah é Oniouvinte, Onisciente.”
“E, se teu Senhor quisesse, todos os que estão na terra juntos, creriam. Então, compelirás tu os homens, até que sejam crentes?”
“Então, lembra-lhes o Alcorão. És, apenas lembrador. Não és, sobre eles, dono absoluto.”
“E dize: “A verdade emana de vosso Senhor. Então, quem quiser que creia, e quem quiser que renegue a Fé. Por certo, preparamos para os injustos um Fogo, cujo paredão de labaredas os abarcará. E, se pedirem socorrimento, terão socorrimento de água, como o metal em fusão: escaldar-lhes-á as faces. Que execrável bebida! E que vil recinto de permanência!””
Perspectivas
Cristã
Muitos cristãos dizem que as conversões forçadas foram crimes de reis e soldados, e não o ensino de Cristo ou da Igreja. Dizem que a fé verdadeira não pode ser forçada.
As conversões forçadas foram obra dos governantes, e não da Igreja.
Réplica
O Requerimiento exigia que os conquistados aceitassem a Igreja como senhora de todo o mundo. Deviam aceitar também a doação das suas terras à Espanha feita pelo Papa. Na Espanha, Lea liga as conversões forçadas de Granada aos métodos arbitrários de Jiménez de Cisneros, o arcebispo de Toledo.
O próprio Requerimiento dizia que ninguém seria obrigado a se tornar cristão.
Réplica
Dizia, sim. Depois ameaçava com a guerra, a escravidão e a tomada das mulheres e dos filhos de quem não aceitasse a Igreja como senhora do mundo e não deixasse os seus sacerdotes pregar. Uma escolha entre isso e a submissão não é escolha livre.
A perspectiva islâmica
Governantes cristãos impuseram o batismo aos saxões, aos muçulmanos da Espanha e aos africanos escravizados. Conquistaram as Américas em nome da Igreja. Fizeram guerra aos muçulmanos das Filipinas para arrancar a sua fé. O Alcorão proíbe a compulsão na religião.
A lei de Carlos Magno mandava a morte para todo saxão que se escondesse para fugir do batismo.
O decreto espanhol de 1502 não deixou aos muçulmanos de Castela outro jeito de ficar senão o batismo.
O Code Noir francês de 1685 mandou batizar católica toda pessoa escravizada nas ilhas americanas da França.
O islã chegou às Filipinas pela pregação. Em 1578, um governador espanhol mandou prender os seus pregadores e queimar os lugares onde pregavam.
O Alcorão diz que não há compulsão na religião.