Resposta curta
Não. No Vedanta, o karma é a retribuição do Senhor (o pagamento que ele dá pelos atos). O Brahma Sutra diz que o fruto de todo ato vem dele. Segundo esse ensinamento, uma criança nascida cega está cumprindo uma pena. O livro de leis de Manu diz que essas pessoas nascem assim por crimes anteriores, e são “desprezados pelos virtuosos”. Mas nenhuma acusação é lida, nenhum registro é mostrado, e a criança não se lembra de nada. A cadeia das vidas não tem começo, então nenhum primeiro ato livre mereceu a pena. Alguns hindus, e os jainistas e os budistas, ensinam o karma sem Senhor. Então ele é um processo cego, nem justo nem injusto. O islã ensina uma só vida e um só julgamento. Cada pessoa lê o seu próprio registro, e ninguém carrega o fardo de outro. O Alcorão diz que não há falta sobre o cego. O Profeta (ﷺ) prometeu o Paraíso aos crentes que perdem a vista e são pacientes.
Explicação completa
O ensinamento hindu: o karma é a retribuição do Senhor
O karma é o ensinamento de que todo ato traz de volta o seu fruto, nesta vida ou numa vida posterior. O Vedanta é a escola que lê as Upanishads (os ensinamentos do Veda sobre a alma e Deus (﷾)) através do Brahma Sutra. No Vedanta, o karma não é acaso nem uma força cega. O Brahma Sutra é um texto curto e antigo atribuído a Badarayana. Ele diz que o fruto das obras vem do Senhor, “pois (só isso) é possível”. Shankara, um mestre do Vedanta de cerca do século VIII, explica isso. Só o governante de tudo pode efetuar a retribuição que corresponde ao mérito de cada agente. Retribuição quer dizer o pagamento pelo que uma pessoa fez. Só ele conhece todas as diferenças de lugar e de tempo. Um ato não pode fazê-lo, porque passa assim que é feito. Ramanuja, um mestre do Vedanta dos séculos XI e XII, diz o mesmo. A ação, que “não é inteligente e é transitória”, não pode produzir um resultado no futuro, então as recompensas vêm do Senhor onisciente. Nem toda escola hindu concordava. O Brahma Sutra relata que Jaimini, a quem se atribuem os Mimamsa Sutras, sustentava que o próprio mérito religioso produz os frutos. A Mimamsa é a escola que estuda as regras do sacrifício. Nessa opinião, o ato deixa um efeito posterior invisível, o apurva, e “o resultado nasce só do ato”. Uma razão dada é que um Senhor que distribuísse os resultados “teria de ser acusado de parcialidade e crueldade”. Badarayana rejeita essa opinião no sutra (dito curto) seguinte e nomeia o Senhor como a causa. Por que então as criaturas são tão desiguais, umas felizes e outras miseráveis? O Sutra responde que o Senhor não pode ser censurado, porque ele leva em conta o mérito e o demérito. Shankara o compara à chuva, que cai igualmente sobre todas as sementes, enquanto cada semente cresce segundo a sua espécie. Ele conclui que o Senhor cria todas as criaturas “em formas e condições que correspondem aos seus atos anteriores e os retribuem”.
“Dele (isto é, do Senhor, vem) o fruto (das obras); pois (só isso) é possível.”
“O governante de tudo, que por sua vez provê a criação, a subsistência e a reabsorção do mundo, e que conhece todas as diferenças de lugar e de tempo, só ele é capaz de efetuar todos aqueles modos de retribuição que estão de acordo com o mérito dos agentes; as ações, por outro lado, que passam assim que feitas, não têm poder de produzir resultados num tempo futuro, já que nada pode surgir do nada.”
“Pois só ele, o onisciente, todo-poderoso, supremamente generoso, que, agradado pelos sacrifícios, dádivas, oferendas e semelhantes, assim como pela meditação piedosa, está em condição de conceder as diferentes formas de gozo neste mundo e no celeste, e a Libertação, que consiste em alcançar uma natureza como a sua. Pois a ação, que não é inteligente e é transitória, é incapaz de produzir um resultado ligado a um tempo futuro.”
“Gaimini (pensa), pelas mesmas razões, que o mérito religioso (é o que produz os frutos das ações).”
“Ora, é claro que um ato não pode produzir um resultado num tempo futuro a menos que, antes de passar, dê origem a algum resultado invisível; supomos, portanto, que existe algum resultado a que chamamos apûrva, e que pode ser visto ou como um estado posterior imperceptível do ato ou como um estado anterior imperceptível do resultado. Esta hipótese remove todas as dificuldades, enquanto, por outro lado, é impossível que o Senhor produza os resultados das ações. Pois, em primeiro lugar, uma só causa uniforme não pode explicar uma grande variedade de efeitos; em segundo lugar, o Senhor teria de ser acusado de parcialidade e crueldade; e, em terceiro lugar, se o próprio ato não produzisse o seu fruto, seria inútil realizá-lo. Por todas estas razões, o resultado nasce só do ato, seja meritório ou não meritório.”
“Bâdarâyana, porém, pensa no primeiro (isto é, no Senhor como causa dos frutos da ação), já que ele é designado como a causa (das próprias ações).”
“Desigualdade (de dispensação) e crueldade (o Senhor) não (pode ser censurado), por levar em conta (o mérito e o demérito); pois assim (a Escritura) declara.”
“O Senhor, respondemos, não pode ser censurado por desigualdade de dispensação e crueldade, “porque está preso a considerações”. Se o Senhor, por conta própria, sem nenhuma consideração externa, produzisse esta criação desigual, exporia-se à censura; mas o fato é que, ao criar, está preso a certas considerações, isto é, tem de olhar para o mérito e o demérito. Por isso, a circunstância de a criação ser desigual se deve ao mérito e ao demérito das criaturas vivas criadas, e não é uma falta de que o Senhor deva ser culpado. A posição do Senhor deve ser vista como análoga à de Parganya, o Doador da chuva. Pois, assim como Parganya é a causa comum da produção do arroz, da cevada e de outras plantas, enquanto a diferença entre as várias espécies se deve às várias potencialidades escondidas nas respectivas sementes, assim o Senhor é a causa comum da criação dos deuses, dos homens etc., enquanto as diferenças entre estas classes de seres se devem ao diferente mérito que pertence às almas individuais.”
“Todos os textos do Vedânta, além disso, declaram que o Senhor é a única causa de toda a criação. E o fato de Ele criar todas as criaturas em formas e condições que correspondem aos seus atos anteriores e os retribuem é justamente o que nos dá o direito de chamar o Senhor a causa de todos os frutos das ações.”
O nascimento como recompensa e castigo, nas próprias escrituras
O ensinamento está na shruti, a camada revelada. A Chandogya Upanishad diz que aqueles cuja conduta foi boa alcançam depressa um bom nascimento. Ela nomeia o nascimento de um brâmane (sacerdote), de um xátria (guerreiro) ou de um vaixá (comerciante). Aqueles cuja conduta foi má alcançam um mau nascimento, como cão, porco ou Chandala, um pária. Na Bhagavad Gita, Krishna fala como o Senhor e diz que lança continuamente os cruéis e ímpios “só em ventres demoníacos”. Ali eles ficam “iludidos em cada nascimento”. O Manusmriti, o mais conhecido dos livros de leis, o diz com todas as letras. Alguns homens têm a aparência mudada por crimes desta vida, e alguns por crimes “numa (existência) anterior”. Ele lista as marcas. Roubar o ouro de um brâmane traz unhas doentes, roubar as palavras do Veda a perda da fala, e roubar roupas a lepra branca. Depois dá a causa: “um resto (da culpa de) crimes (anteriores)”. Assim “nascem idiotas, mudos, cegos, surdos e homens deformados, que são (todos) desprezados pelos virtuosos”. Por isso, diz ele, é preciso fazer penitências: aqueles cujos pecados não foram expiados “nascem (de novo) com marcas vergonhosas”.
“Aqueles cuja conduta foi boa alcançarão depressa um bom nascimento, o nascimento de um Brâhmana, ou de um Kshatriya, ou de um Vaisya. Mas aqueles cuja conduta foi má alcançarão depressa um mau nascimento, o nascimento de um cão, ou de um porco, ou de um Kandâla.”
“Estes inimigos, ferozes, os mais vis dos homens e ímpios, eu os lanço continuamente a estes mundos, só em ventres demoníacos. Vindo a ventres demoníacos, iludidos em cada nascimento, descem ao estado mais vil, ó filho de Kuntî!, sem jamais vir a mim.”
“Alguns homens maus sofrem uma mudança da sua aparência (natural) em consequência de crimes cometidos nesta vida, e alguns em consequência dos cometidos numa (existência) anterior.”
Manu lista as marcas que se seguem a pecados particulares: o homem que rouba o ouro de um brâmane tem as unhas doentes, o que bebe licor tem os dentes negros, o que mata um brâmane tem tuberculose, o que viola o leito do seu mestre tem a pele doente; o que rouba cereais fica sem membros, o que rouba as palavras do Veda perde a fala (três comentadores explicam: quem aprende o Veda sem permissão ouvindo outro recitá-lo; outro o entende como plagiador), o que rouba roupas tem lepra branca, o que rouba cavalos é coxo. Pelo verso 52, o que rouba uma lâmpada fica cego e o que a apaga fica caolho. Bühler observa que alguns comentadores e textos omitem o verso 52.
“Assim, em consequência de um resto (da culpa de) crimes (anteriores), nascem idiotas, mudos, cegos, surdos e homens deformados, que são (todos) desprezados pelos virtuosos.”
“Portanto, as penitências devem sempre ser realizadas para a purificação, porque aqueles cujos pecados não foram expiados nascem (de novo) com marcas vergonhosas.”
Uma pena sem acusação, sem audiência e sem registro
Esta página critica um ensinamento, e não uma pessoa. Uma criança nascida cega ou surda não é criminosa, e ninguém deve ser tratado como tal. Mas, segundo os textos acima, é isso que o corpo da criança é: a retribuição do Senhor por atos praticados antes do nascimento. Uma pena justa nomeia o crime, ouve o acusado e mostra as provas. Aqui não há acusação, nem audiência, nem registro. A criança não pode lembrar o ato, e ninguém pode dizer qual ato foi. A lista de Manu, em que um pecado traz uma marca e outro pecado outra, não pode ser verificada por ninguém. A lei então tratava a marca como sinal da culpa. Um homem nascido duas vezes (de uma das três classes superiores) pode dever uma penitência por um ato de uma vida anterior. Ele deve ficar longe dos homens virtuosos até cumpri-la. Os comentadores explicam que o ato anterior pode ser deduzido de dentes negros ou de algum outro defeito do corpo. Um cego presente no banquete fúnebre faz quem o oferece perder a recompensa de noventa convidados. A lei também os excluía da herança: os nascidos cegos ou surdos, e os que não podem falar, não recebem parte. Manu acrescenta, e é preciso dizê-lo, que ainda assim se lhes deve dar comida e roupa sem restrição. O dever cabe a um homem que conhece a lei, segundo a sua capacidade. Mas comida e roupa dadas aos excluídos não são justiça feita aos inocentes.
“Assim, em consequência de um resto (da culpa de) crimes (anteriores), nascem idiotas, mudos, cegos, surdos e homens deformados, que são (todos) desprezados pelos virtuosos.”
“O homem nascido duas vezes que se tornou obrigado a fazer uma penitência, seja pelo (decreto do) destino, seja por (um ato) cometido numa vida anterior, não deve, antes de feita a penitência, ter convívio com homens virtuosos.”
“Um cego, pela sua presença, faz o que dá (o banquete) perder a recompensa de noventa (convidados), um caolho a de sessenta, quem sofre de lepra branca a de cem, e quem é castigado por uma doença (terrível) a de mil.”
“Os eunucos e os excluídos, (as pessoas) nascidas cegas ou surdas, os loucos, os idiotas e os mudos, assim como os que têm falta de algum órgão (de ação ou de sensação), não recebem parte. Mas é justo que (um homem) que conhece (a lei) dê mesmo a todos eles comida e roupa sem restrição, segundo a sua capacidade; quem não a dá se tornará um excluído.”
A resposta clássica: a cadeia não tem começo
Os mestres hindus viram este problema há muito tempo, e o próprio Shankara o expõe. Se o Senhor dá a cada criatura o que os seus atos anteriores merecem, o que as criaturas mereciam na primeira criação, antes de terem feito qualquer coisa? E, se os atos explicam as condições enquanto as condições explicam os atos, o raciocínio anda em círculo. O Brahma Sutra responde que o mundo do renascimento não tem começo. Shankara explica que o mérito e a desigualdade são “como a semente e o broto, causados e também causas”. Então nunca houve uma primeira criação sem passado atrás dela. Um começo, argumenta ele, deixaria o prazer e a dor distribuídos sem causa. Então teríamos de aceitar que “as recompensas e os castigos são distribuídos sem referência às boas ou más ações anteriores”.
“Se se objetar que isso (a saber, o Senhor levar em conta o mérito e o demérito) é impossível por causa da não distinção (do mérito e do demérito antes da primeira criação), refutamos a objeção com base em (o mundo) não ter começo.”
“Mas, levanta-se uma objeção, a passagem “Só o Ser existia isto no princípio, um, sem segundo” afirma que antes da criação não havia distinção e, por conseguinte, nenhum mérito por causa do qual a criação pudesse ter se tornado desigual. E, se supusermos que o Senhor foi guiado nas suas dispensações pelas ações dos seres vivos posteriores à criação, caímos no raciocínio circular de que a obra depende da diversidade da condição de vida, e a diversidade da condição, por sua vez, da obra. Pode-se considerar que o Senhor age levando em conta o mérito religioso depois que a distinção surgiu; mas, como antes disso a causa da desigualdade, a saber, o mérito, não existia, segue-se que a primeira criação deve ter sido livre de desigualdades. Respondemos a esta objeção observando que o mundo da transmigração não tem começo. A objeção seria válida se o mundo tivesse um começo; mas, como não tem começo, o mérito e a desigualdade são, como a semente e o broto, causados e também causas, e por isso não há objeção lógica à sua operação.”
“A ausência de começo do mundo se recomenda à razão. Pois, se tivesse começo, seguir-se-ia que, surgindo o mundo à existência sem causa, também as almas libertadas entrariam de novo no círculo da existência da transmigração; e, além disso, como então não existiria nenhuma causa determinante da dispensação desigual do prazer e da dor, teríamos de aceitar a doutrina de que as recompensas e os castigos são distribuídos sem referência às boas ou más ações anteriores.”
Por que uma cadeia sem fim não torna a pena justa
A resposta de Shankara torna o círculo infinito; não o quebra. Cada nascimento é explicado por um anterior, e esse por outro antes dele, para sempre. Então a cadeia nunca explica por que existe sofrimento, nem por que a cadeia de uma alma passa pela cegueira e a de outra pelo conforto. Toda resposta é só: por causa de uma anterior. Há um problema mais profundo. A Kaushitaki Upanishad, tal como Shankara a cita, fala daquele que o Senhor deseja rebaixar destes mundos. O Senhor faz “aquele que deseja rebaixar destes mundos praticar uma má obra”. Os comentadores explicam que isso não é injustiça. O mérito ou demérito anterior de um ser “determina a qualidade específica das ações que ele pratica na sua existência presente”. Então cada ato é moldado por uma pena anterior, e cada pena responde a um ato anterior. Não há um primeiro ato feito livremente por uma alma de registro limpo. Shankara diz em outro lugar que a alma ainda age: “O Senhor de fato a faz agir, mas ela age por si mesma.” Mas o Senhor a move agora levando em conta os seus esforços anteriores, e esses levando em conta esforços antes deles. Shankara chama isso “um regresso”, e ele volta para trás para sempre. Sem um primeiro ato livre, “merecido” não tem onde se apoiar. Este argumento não depende de o universo ter um começo no tempo. Admitamos os ciclos sem fim da cosmologia hindu: uma cadeia de penas sem um primeiro ato livre ainda não pode tornar justa nenhuma delas.
“Mas, levanta-se uma objeção, a passagem “Só o Ser existia isto no princípio, um, sem segundo” afirma que antes da criação não havia distinção e, por conseguinte, nenhum mérito por causa do qual a criação pudesse ter se tornado desigual. E, se supusermos que o Senhor foi guiado nas suas dispensações pelas ações dos seres vivos posteriores à criação, caímos no raciocínio circular de que a obra depende da diversidade da condição de vida, e a diversidade da condição, por sua vez, da obra. Pode-se considerar que o Senhor age levando em conta o mérito religioso depois que a distinção surgiu; mas, como antes disso a causa da desigualdade, a saber, o mérito, não existia, segue-se que a primeira criação deve ter sido livre de desigualdades. Respondemos a esta objeção observando que o mundo da transmigração não tem começo. A objeção seria válida se o mundo tivesse um começo; mas, como não tem começo, o mérito e a desigualdade são, como a semente e o broto, causados e também causas, e por isso não há objeção lógica à sua operação.”
“E, se nos perguntarem como sabemos que o Senhor, ao criar este mundo com as suas várias condições, está preso a considerações, respondemos que a Escritura o declara; comparem-se, por exemplo, as duas passagens seguintes: “Pois ele (o Senhor) faz aquele que deseja elevar destes mundos praticar uma boa obra; e o mesmo faz aquele que deseja rebaixar destes mundos praticar uma má obra” (Kaush. Up. III, 8); e “O homem se torna bom pela boa obra, mau pela má obra” (Bri. Up. III, 2, 13).”
“Desta passagem não devemos, dizem os comentadores, inferir injustiça da parte do Senhor; pois o mérito ou demérito anterior de um ser determina a qualidade específica das ações que ele pratica na sua existência presente, agindo o Senhor só como causa comum (como faz Parganya).”
“De modo nenhum, respondemos; pois, embora a atividade da alma não seja independente, ainda assim a alma age. O Senhor de fato a faz agir, mas ela age por si mesma. Além disso, o Senhor, ao fazê-la agir agora, leva em conta os seus esforços anteriores, e fê-la agir numa existência anterior levando em conta os seus esforços antes dessa existência; um regresso contra o qual, considerando a eternidade do samsâra, não se podem levantar objeções.”
Sem um Senhor: Jaimini, os budistas e os jainistas
Alguns ensinam o karma sem um Senhor que distribua os frutos. Jaimini sustentava, tal como Shankara expõe a sua opinião, que “o resultado nasce só do ato”. Os budistas e os jainistas também ensinam o karma e o renascimento sem um Senhor. O Milindapanha é um livro budista em que o monge Nagasena responde às perguntas do rei Milinda. O rei pergunta por que os homens não são iguais, uns de vida curta, doentes, pobres ou de baixo nascimento e outros o contrário. Nagasena responde que as plantas diferem porque as suas sementes diferem. Ele cita o Buda: os seres são “herdeiros do Karma”, e “É o Karma que os divide em baixos e altos”. Mas os budistas não dizem que todo sofrimento é karma. O Buda nomeou a bile, o fleuma, o vento e o tempo também como causas da dor. Nagasena diz que o fruto do karma “é muito menos do que o que surge de outras causas”. E acrescenta: “Ninguém sem a visão de um Buda pode fixar o alcance da ação do Karma.” O Buda contou os resultados dos atos entre quatro coisas que são “impensáveis”. O Uttaradhyayana é uma escritura jainista. Ele ensina oito tipos de karma, “preso aos quais a alma gira e gira no Círculo dos Nascimentos”. Eles fixam a dor e o prazer, a duração da vida e a família em que se nasce. Cada alma carrega o seu: “o Karman segue quem o pratica”. Um hino jainista nega qualquer fazedor “que aja por livre vontade”.
“Ora, é claro que um ato não pode produzir um resultado num tempo futuro a menos que, antes de passar, dê origem a algum resultado invisível; supomos, portanto, que existe algum resultado a que chamamos apûrva, e que pode ser visto ou como um estado posterior imperceptível do ato ou como um estado anterior imperceptível do resultado. Esta hipótese remove todas as dificuldades, enquanto, por outro lado, é impossível que o Senhor produza os resultados das ações. Pois, em primeiro lugar, uma só causa uniforme não pode explicar uma grande variedade de efeitos; em segundo lugar, o Senhor teria de ser acusado de parcialidade e crueldade; e, em terceiro lugar, se o próprio ato não produzisse o seu fruto, seria inútil realizá-lo. Por todas estas razões, o resultado nasce só do ato, seja meritório ou não meritório.”
“O rei disse: “Por que é, Nâgasena, que nem todos os homens são iguais, mas alguns vivem pouco e alguns muito, alguns são doentes e alguns sadios, alguns feios e alguns belos, alguns sem influência e alguns de grande poder, alguns pobres e alguns ricos, alguns de baixo nascimento e alguns de alto nascimento, alguns estúpidos e alguns sábios?” O Ancião respondeu: “Por que é que nem todos os vegetais são iguais, mas alguns são azedos, e alguns salgados, e alguns picantes, e alguns ácidos, e alguns adstringentes, e alguns doces?” “Imagino, Senhor, que é porque vêm de diferentes tipos de sementes.” “E assim mesmo, grande rei, devem ser explicadas as diferenças que mencionaste entre os homens. Pois foi dito pelo Abençoado: ‘Os seres, ó brâmane, têm cada um o seu próprio Karma, são herdeiros do Karma, pertencem à tribo do seu Karma, são parentes pelo Karma, têm cada um o seu Karma como senhor protetor. É o Karma que os divide em baixos e altos e divisões semelhantes.’””
O andarilho Sivaka pergunta ao Buda sobre os que ensinam que tudo o que uma pessoa sente, agradável, doloroso ou neutro, é por causa de atos passados. O Buda responde que alguns sentimentos vêm da bile, alguns do fleuma, alguns do vento, alguns da sua combinação, alguns da mudança do tempo, alguns de não cuidar de si, alguns do esforço, e alguns são o resultado de atos passados. Os que dizem que tudo o que uma pessoa sente vem de atos passados vão além do que se sabe, e estão errados.
“Assim, o que surge como fruto do Karma é muito menos do que o que surge de outras causas. E os ignorantes vão longe demais quando dizem que toda dor é produzida como fruto do Karma. Ninguém sem a visão de um Buda pode fixar o alcance da ação do Karma.”
“Mendicantes, estas quatro coisas são impensáveis. Não se deve pensar nelas, e quem tentar pensar nelas enlouquecerá ou se frustrará.”
“Explicarei agora, na devida ordem, os oito tipos de Karman, preso aos quais a alma gira e gira no Círculo dos Nascimentos.”
Os oito tipos de karma são os que obstruem o conhecimento correto, obstruem a fé correta, levam a experimentar dor ou prazer, levam à ilusão, determinam a duração da vida, determinam o nome ou a individualidade da alma encarnada, determinam a sua linhagem familiar (gotra) e impedem a entrada no caminho da bem-aventurança eterna.
“Nem os seus parentes, nem os seus amigos, nem os seus filhos, nem os seus familiares partilharão o seu sofrimento; só ele tem de suportá-lo; pois o Karman segue quem o pratica.”
“Não há aqui nenhum fazedor que aja por livre vontade, senão a sua influência se estenderia até a fabricação de uma esteira. De que serviriam tu ou todos os artesãos, se Íśwara fabrica os três mundos?”
Por que o karma sem um Senhor também não é justiça
Nada disso escapa do problema; torna-o mais agudo. Os budistas respondem que o karma é a própria intenção, então um acidente não produz karma. Mas a intenção explica por que um ato é bom ou mau. Não explica como uma intenção cruel se torna uma vida curta ou um olho cego, na medida certa. Isso exige uma escala do que cada mal merece, e manter tal escala é trabalho de um juiz. O próprio Shankara argumentou que o efeito posterior invisível de um ato não pode agir sozinho. Ele é “de natureza não inteligente, comparável a um pedaço de madeira ou de metal, e como tal não pode agir a menos que seja movido por algum ser inteligente”. Se o karma é um processo como sementes crescendo segundo a sua espécie, não é justiça de modo nenhum: uma semente azeda não merece o seu azedume. Então, para um budista, a cegueira de uma criança tem uma de duas fontes. Ou é karma que ninguém além de um Buda pode ler, ou uma das outras causas que o Buda nomeou, como doença ou ferimento. No primeiro caso, uma pena que ninguém pode ler é o problema com que esta página começou. No segundo, o karma não é a resposta para o sofrimento da criança. Onde o karma divide, sim, os seres “em baixos e altos”, as outras objeções não precisam de um Senhor. Vêm da memória, da cadeia sem fim e da falta de um primeiro ato livre. O islã dá uma terceira resposta. A dificuldade não é uma pena escondida nem uma causa cega, mas uma prova vinda de Deus (﷾), que a vê e a recompensa.
“É a intenção que chamo atos. Pois, depois de fazer uma escolha, age-se por meio do corpo, da fala e da mente.”
“Nem, em segundo lugar, temos o direito de supor que o fruto nascerá, num tempo futuro, do chamado princípio suprassensível (apûrva), que se supõe ser ele mesmo resultado direto do ato; pois esse chamado princípio suprassensível é algo de natureza não inteligente, comparável a um pedaço de madeira ou de metal, e como tal não pode agir a menos que seja movido por algum ser inteligente.”
“Assim, o que surge como fruto do Karma é muito menos do que o que surge de outras causas. E os ignorantes vão longe demais quando dizem que toda dor é produzida como fruto do Karma. Ninguém sem a visão de um Buda pode fixar o alcance da ação do Karma.”
“Mendicantes, estas quatro coisas são impensáveis. Não se deve pensar nelas, e quem tentar pensar nelas enlouquecerá ou se frustrará.”
“O rei disse: “Por que é, Nâgasena, que nem todos os homens são iguais, mas alguns vivem pouco e alguns muito, alguns são doentes e alguns sadios, alguns feios e alguns belos, alguns sem influência e alguns de grande poder, alguns pobres e alguns ricos, alguns de baixo nascimento e alguns de alto nascimento, alguns estúpidos e alguns sábios?” O Ancião respondeu: “Por que é que nem todos os vegetais são iguais, mas alguns são azedos, e alguns salgados, e alguns picantes, e alguns ácidos, e alguns adstringentes, e alguns doces?” “Imagino, Senhor, que é porque vêm de diferentes tipos de sementes.” “E assim mesmo, grande rei, devem ser explicadas as diferenças que mencionaste entre os homens. Pois foi dito pelo Abençoado: ‘Os seres, ó brâmane, têm cada um o seu próprio Karma, são herdeiros do Karma, pertencem à tribo do seu Karma, são parentes pelo Karma, têm cada um o seu Karma como senhor protetor. É o Karma que os divide em baixos e altos e divisões semelhantes.’””
O andarilho Sivaka pergunta ao Buda sobre os que ensinam que tudo o que uma pessoa sente, agradável, doloroso ou neutro, é por causa de atos passados. O Buda responde que alguns sentimentos vêm da bile, alguns do fleuma, alguns do vento, alguns da sua combinação, alguns da mudança do tempo, alguns de não cuidar de si, alguns do esforço, e alguns são o resultado de atos passados. Os que dizem que tudo o que uma pessoa sente vem de atos passados vão além do que se sabe, e estão errados.
Uma só vida, e um registro que o seu dono lê
O Alcorão ensina uma só vida neste mundo e um só julgamento depois dela. Ninguém é condenado sem ver. No Dia do Juízo, cada pessoa recebe um livro e ouve: “Lê teu livro”. O livro “não deixa, nem cousa pequena, nem cousa grande” sem enumerar, e ninguém sofre injustiça. Até as mãos e os pés de uma pessoa testemunharão o que ela fez. Nenhuma alma carrega a culpa de outra: “nenhuma alma pecadora arca com o pecado de outra”. Uma pessoa não tem senão aquilo por que se esforça. Ninguém é castigado antes de ter sido advertido: “não é admissível que castiguemos a quem quer que seja, até que lhe enviemos um Mensageiro”.
“E, em cada ser humano, impusemos seu agouro no pescoço. E, no Dia da Ressurreição, faremos sair para ele, um Livro, que ele deparará, desenrolado. Dir-se-lhe-á: “Lê teu livro. Hoje, bastas-te, a ti mesmo, por ajustador de contas””
“E será posto o Livro à vista; então, tu verás os criminosos atemorizados do que nele há; e dirão: “Ai de nós! Por que razão este Livro não deixa, nem cousa pequena, nem cousa grande, sem enumerá-la?” E nele, encontrarão presente o que fizeram. E teu Senhor não faz injustiça com ninguém.”
“Nesse dia, selar-lhes-emos as bocas, e suas mãos Nos falarão, e suas pernas testemunharão o que cometiam.”
“Dize: “Buscarei outro senhor que Allah, enquanto Ele é O Senhor de todas as cousas? E cada alma não comete pecado senão contra si mesma. E nenhuma alma pecadora arca com o pecado de outra. Em seguida, a vosso Senhor será vosso retorno: então, Ele vos informará daquilo de que discrepáveis.””
“Que nenhuma alma pecadora arca com o pecado de outra, E que não há, para o ser humano, senão o que adquire com seu esforço,”
“Quem se guia se guiará, apenas, em benefício de si mesmo, e quem se descaminha se descaminhará, apenas, em prejuízo de si mesmo. E nenhuma alma pecadora arca com o pecado de outra. E não é admissível que castiguemos a quem quer que seja, até que lhe enviemos um Mensageiro.”
| Pergunta | O karma como retribuição do Senhor | O islã |
|---|---|---|
| Quantas vidas? | Nascimento após nascimento, numa cadeia sem começo. | Uma só vida, depois um só juízo. |
| O registro é mostrado? | Nenhuma acusação é lida e nenhum registro é mostrado; a obra não é lembrada. | Cada pessoa lê o seu próprio registro, que não deixa de fora nada pequeno nem grande. |
| As obras de quem contam? | Obras de vidas de que a pessoa não se lembra. | Ninguém arca com o fardo de outro; cada um tem aquilo por que se esforçou. |
| Os cegos? | O livro de leis de Manu diz que os virtuosos os desprezam. | Não há culpa no cego; o Paraíso para o crente que perde a vista e é paciente. |
Não há falta sobre o cego
Manu diz que os cegos são “desprezados pelos virtuosos”. O Alcorão diz: “Não há falta sobre o cego e não há falta sobre o coxo e não há falta sobre o enfermo”. O versículo os deixa comer livremente nas casas de outros, “reunidos ou separados”. O Profeta (ﷺ) uma vez franziu o rosto e se afastou de um cego que veio pedir para ser ensinado. O Alcorão o repreendeu por isso, e a repreensão está no Alcorão até hoje. O Profeta (ﷺ) deu uma promessa de Allah (﷾) ao crente que perde a vista. Se for paciente, Allah (﷾) lhe dará o Paraíso em lugar dos seus olhos. Uma mulher com epilepsia pediu ao Profeta (ﷺ) que orasse pela sua cura. Ele lhe ofereceu a escolha da paciência com o Paraíso, e ela escolheu a paciência. Ibn Abbas, um Companheiro do Profeta (ﷺ), mais tarde a apontou como uma mulher do povo do Paraíso. O Profeta (ﷺ) disse que Allah (﷾) não olha para os rostos nem para as riquezas das pessoas, mas para os seus corações e as suas obras. Um crente cego ou surdo está diante de Deus (﷾) exatamente como qualquer outro. No islã a perda é uma prova que é honrada e recompensada, nunca uma marca de culpa.
“Assim, em consequência de um resto (da culpa de) crimes (anteriores), nascem idiotas, mudos, cegos, surdos e homens deformados, que são (todos) desprezados pelos virtuosos.”
“Não há falta sobre o cego e não há falta sobre o coxo e não há falta sobre o enfermo nem sobre vós mesmos, em comerdes em vossas casas, ou nas casas de vossos pais, ou nas casas de vossas mães, ou nas casas de vossos irmãos, ou nas casas de vossas irmãs, ou nas casas de vossos tios paternos, ou nas casas de vossas tias paternas, ou nas casas de vossos tios maternos, ou nas casas de vossas tias maternas, ou em casas, cujas chaves possuís, ou nas de vossos amigos. Não há culpa sobre vós, em comerdes reunidos ou separados. E, quando entrardes em casas, cumprimentai-vos mutuamente, com saudação vinda de Allah, bendita e cordial. Assim, Allah torna evidentes, para vós, os versículos, para razoardes.”
“Ele carranqueou e voltou as costas, Por que o cego lhe chegou. E o que te faz inteirar-te que ele, talvez se dignifique? Ou se lembre da Mensagem, e a lembrança o beneficie? Quanto ao que prescinde de ajuda, Tu o ouves, atentamente. E nada te impende se ele não dignifica. E, quanto ao que te chega correndo, Enquanto receia a Allah, Dele te desinteressas.”
Anas ibn Malik ouviu o Profeta (ﷺ) dizer que Allah disse: quando ponho à prova o Meu servo pelas suas duas coisas amadas, isto é, os seus olhos, e ele é paciente, dar-lhe-ei o Paraíso em lugar delas. Al-Bukhari o pôs sob o título “o mérito de quem perdeu a vista”.
Ata ibn Abi Rabah relata que Ibn Abbas se ofereceu para lhe mostrar uma mulher do povo do Paraíso. Era uma mulher negra que tinha vindo ao Profeta (ﷺ) dizendo que sofria ataques de epilepsia em que o seu corpo ficava descoberto, e lhe pediu que orasse por ela. Ele disse: se quiseres, sê paciente e o Paraíso é teu; ou, se quiseres, pedirei a Allah que te cure. Ela disse que seria paciente, mas lhe pediu que orasse para que não ficasse descoberta, e ele orou por ela.
Abu Hurayrah relata que o Profeta (ﷺ) disse: Allah não olha para os vossos rostos nem para as vossas riquezas, mas olha para os vossos corações e as vossas obras.
As crianças, a dificuldade e o propósito da vida
O Profeta (ﷺ) disse que toda criança nasce sobre a fitra, a disposição natural que Deus (﷾) deu à humanidade, como um filhote de animal nasce inteiro. Nada de uma vida anterior é posto sobre ela. As crianças que morrem estão com Abraão no Paraíso. Num relato, quando perguntaram ao Profeta (ﷺ) sobre os filhos dos idólatras, ele disse que eles também estão lá. A dificuldade nesta vida não é uma pena escondida. Nenhum cansaço, doença ou tristeza atinge um crente, nem mesmo a picada de um espinho, sem que Deus (﷾) apague por isso alguns dos seus pecados. Deus (﷾) eleva alguns acima de outros “para pôr-vos à prova, com o que vos concedeu”. Uma diferença de circunstâncias é uma prova, e não um veredicto. Um recém-nascido não está sendo julgado, porque nenhum pecado é posto sobre ele. A sua dor é vista e pesada, e, se ele morre, vai para o Paraíso. A prova na dor de uma criança é para os que a amam e cuidam dela. O Alcorão dá a razão da própria vida: Deus (﷾) “criou a morte e a vida, para pôr à prova qual de vós é melhor em obras”. E promete que “os que pacientam serão recompensados, sem conta, com seus prêmios”. A página sobre por que Deus (﷾) permite o sofrimento expõe o resto.
Abu Hurayrah relata que o Profeta (ﷺ) disse que toda criança nasce sobre a fitra, a fé verdadeira, e são os seus pais que a fazem judia, cristã ou zoroastriana, assim como um animal dá à luz um filhote inteiro: vês algum deles nascer mutilado?
Samura ibn Jundub relata um longo sonho que o Profeta (ﷺ) contou aos seus Companheiros. Dois anjos lhe mostraram, entre outras coisas, um homem muito alto num jardim com muitíssimas crianças em volta. Disseram-lhe que o homem era Abraão, e as crianças eram toda criança que morreu na fitra, a disposição natural que Deus deu à humanidade. Alguns muçulmanos perguntaram: e os filhos dos idólatras? Ele disse: e os filhos dos idólatras.
Abu Sa'id al-Khudri e Abu Hurayrah relatam que o Profeta (ﷺ) disse que nenhum cansaço, doença, tristeza, pesar, ferida ou aflição atinge um muçulmano, nem mesmo a picada de um espinho, sem que Allah apague por isso alguns dos seus pecados.
“E Ele é Quem vos fez sucessores, na terra, e elevou, em escalões, alguns de vós acima de outros, para pôr-vos à prova, com o que vos concedeu. Por certo, teu Senhor é Destro na punição e, por certo, Ele é Perdoador, Misericordiador.”
“E Nós poremos as balanças eqüitativas para o Dia da Ressurreição; então, nenhuma alma sofrerá nada de injustiça. E se houver ação do peso de um grão de mostarda fá-la-emos vir à balança. E bastamos Nós por Ajustador de contas.”
“E em verdade, pomo-vos à prova com algo do medo e da fome e da escassez de riquezas e de pessoas e de frutos. E alvissara o Paraíso aos perseverantes. Àqueles que quando uma desgraça os alcança, dizem: “Por certo, somos de Allah e, por certo, a Ele retornaremos.” Sobre esses são as bênçãos e a misericórdia de seu Senhor. E esses são os guiados.”
“Aquele que criou a morte e a vida, para pôr à prova qual de vós é melhor em obras - e Ele é O Todo-Poderoso, O Perdoador -”
“Dize: “Ó servos Meus, que credes! Temei a vosso Senhor. Para os que bem-fazem, nesta vida, há algo de bom. E a terra de Allah é ampla. Apenas, os que pacientam serão recompensados, sem conta, com seus prêmios.””
As réplicas, respondidas
Shankara, comentário ao Brahma Sutra 2.1.34 — Sacred Books of the East 34, pp. 358-359
“O Senhor, respondemos, não pode ser censurado por desigualdade de dispensação e crueldade, “porque está preso a considerações”. Se o Senhor, por conta própria, sem nenhuma consideração externa, produzisse esta criação desigual, exporia-se à censura; mas o fato é que, ao criar, está preso a certas considerações, isto é, tem de olhar para o mérito e o demérito. Por isso, a circunstância de a criação ser desigual se deve ao mérito e ao demérito das criaturas vivas criadas, e não é uma falta de que o Senhor deva ser culpado. A posição do Senhor deve ser vista como análoga à de Parganya, o Doador da chuva. Pois, assim como Parganya é a causa comum da produção do arroz, da cevada e de outras plantas, enquanto a diferença entre as várias espécies se deve às várias potencialidades escondidas nas respectivas sementes, assim o Senhor é a causa comum da criação dos deuses, dos homens etc., enquanto as diferenças entre estas classes de seres se devem ao diferente mérito que pertence às almas individuais.”
Citado para
O karma não precisa de memória, assim como uma semente não precisa lembrar a árvore de que veio. Um motorista bêbado que esquece o acidente ainda o causou, e ninguém se lembra da própria infância. O karma é causa e efeito, como a chuva faz cada semente crescer segundo a sua espécie, e não um processo num tribunal.
A resposta
O próprio Vedanta não trata o karma como um processo cego. O Brahma Sutra diz que o fruto vem do Senhor. Shankara diz que o Senhor “só ele é capaz de efetuar todos aqueles modos de retribuição que estão de acordo com o mérito dos agentes”. Ele fala de “as recompensas e os castigos” por boas ou más ações passadas. Alguns hindus sustentam, em vez disso, com Jaimini, que “o resultado nasce só do ato”, sem Senhor. A razão dada merece nota: um Senhor que distribuísse tais resultados “teria de ser acusado de parcialidade e crueldade”. Badarayana rejeita essa opinião, e Shankara responde que um efeito posterior invisível “não pode agir a menos que seja movido por algum ser inteligente”. De qualquer modo, um processo cego não pode ser nem justo nem injusto. A pena de um juiz é outra coisa, e um juiz justo nomeia a acusação e mostra as provas. O motorista bêbado é condenado com provas, e é claramente o mesmo homem que dirigia. Um homem que esqueceu a sua infância ainda é o mesmo corpo que outros viram crescer. Nada que alguém possa observar liga um nascimento a outro. A uma criança nascida cega não se pode mostrar nada: ninguém pode dizer por qual ato ela está pagando. Manu diz saber, mas as suas respostas não podem ser testadas: a perda da fala por roubar as palavras do Veda, a lepra branca por roubar roupas. No islã, ninguém é julgado sem o seu registro: “Lê teu livro”. O livro “não deixa, nem cousa pequena, nem cousa grande”, e até as mãos e os pés de um homem testemunham.
Onde fica — No Vedanta, o karma é a pena do Senhor, e uma pena justa precisa de uma acusação e de um registro. Sem um Senhor, o karma é um processo cego, e isso também não é justiça.
Manusmriti 11.53 — capítulo 11, verso 53
“Assim, em consequência de um resto (da culpa de) crimes (anteriores), nascem idiotas, mudos, cegos, surdos e homens deformados, que são (todos) desprezados pelos virtuosos.”
Citado para
Manu é um livro de leis da sua época, smriti, e não shruti revelada. A sua lista de pecados e defeitos de nascença é crença popular. A doutrina do karma se sustenta nas Upanishads e na Gita sem ele.
A resposta
O ensinamento de que o nascimento é recompensa e castigo está na própria shruti. A Chandogya Upanishad fala daqueles cuja conduta foi má. Eles “alcançarão depressa um mau nascimento, o nascimento de um cão, ou de um porco, ou de um Kandâla”, um pária. Na Gita, o Senhor diz que lança os cruéis e ímpios “só em ventres demoníacos”. O Brahma Sutra diz que o Senhor não é culpado pela desigualdade das criaturas, porque leva em conta o seu mérito e demérito. Shankara diz que ele cria todas as criaturas “em formas e condições que correspondem aos seus atos anteriores e os retribuem”. Manu só nomeia penas particulares. Ponha Manu de lado, e a condição de uma criança ao nascer ainda é, nesses textos, retribuição por atos praticados antes dela.
Onde fica — As Upanishads, a Gita e o Brahma Sutra ensinam que o nascimento é retribuição por atos anteriores. Manu só dá os detalhes.
Bhagavad Gita 2:22 — capítulo 2, verso 22
“Como um homem, deixando roupas velhas, veste outras e novas, assim o (eu) encarnado, deixando corpos velhos, vai para outros e novos.”
Citado para
A criança não é um novo inocente. O mesmo eu eterno que agiu antes veste agora um novo corpo, como um homem veste roupas novas. Quem sofre é quem praticou o ato. Krishna diz a Arjuna que ambos passaram por muitos nascimentos, e diz: “Eu os conheço todos”.
A resposta
Se o eu não leva nenhuma memória do ato, nem registro que alguém possa verificar, a afirmação não pode ser verificada. Nada mostra que esta criança praticou aquele ato. Quem sofre conhece só esta vida e esta mente, e não pode responder pelo que não pode saber. Um tribunal que dissesse você o fez numa vida de que não se lembra não seria chamado justo em lugar nenhum da terra. O Alcorão mantém cada alma presa aos seus próprios atos na sua própria vida: “nenhuma alma pecadora arca com o pecado de outra”. Uma pessoa não tem senão aquilo por que se esforça. O Profeta (ﷺ) disse que toda criança nasce sobre a fitra, como um filhote de animal nasce inteiro. Nenhuma dívida de uma vida anterior é posta sobre ela. As próprias palavras de Krishna concedem o ponto: ele conhece os nascimentos passados, e Arjuna não. No Alcorão, mostra-se a cada pessoa o seu próprio registro e se lhe diz: “Lê teu livro”.
Onde fica — Uma identidade que ninguém pode rastrear não pode carregar uma culpa que ninguém pode mostrar. O islã mantém cada alma presa aos atos da sua própria vida.
Shankara, comentário ao Brahma Sutra 3.2.38 — Sacred Books of the East 38, p. 181
“O governante de tudo, que por sua vez provê a criação, a subsistência e a reabsorção do mundo, e que conhece todas as diferenças de lugar e de tempo, só ele é capaz de efetuar todos aqueles modos de retribuição que estão de acordo com o mérito dos agentes; as ações, por outro lado, que passam assim que feitas, não têm poder de produzir resultados num tempo futuro, já que nada pode surgir do nada.”
Citado para
O Senhor sabe todas as coisas. Os tribunais humanos precisam de acusação e provas porque os juízes humanos podem errar. O Senhor não pode errar, então não precisa de audiência. A sua pena é justa, quer se diga à alma o porquê, quer não.
A resposta
O Deus (﷾) do Alcorão também sabe todas as coisas, e ainda assim não julga sem mostrar. Ele mostra a cada pessoa o seu próprio registro: “Hoje, bastas-te, a ti mesmo, por ajustador de contas”. Os próprios membros de uma pessoa testemunham. Os mensageiros vieram primeiro, para que “não houvesse, da parte dos humanos, argumentação diante de Allah”. O registro é mostrado para quem é julgado, e não para o Juiz. Uma pena cuja razão nunca pode ser conhecida não pode ser assumida, nem lamentada, nem servir de lição. Manu exige penitências, porque aqueles cujos pecados “não foram expiados” nascem com marcas. Mas ninguém pode dizer que pecados foram.
Onde fica — O Deus (﷾) onisciente do Alcorão ainda mostra a cada alma o seu registro e a adverte primeiro. A pena no nascimento não mostra nada.
Brihadaranyaka Upanishad 4.4.5 — capítulo 4, seção 4, verso 5
“E aqui dizem que a pessoa consiste em desejos. E, como é o seu desejo, assim é a sua vontade; e, como é a sua vontade, assim é o seu ato; e, seja qual for o ato que pratique, isso colherá.”
Citado para
Ninguém é condenado. A alma vai para onde os seus próprios desejos a levam: “como é o seu desejo, assim é a sua vontade; e, como é a sua vontade, assim é o seu ato”. Nesse sentido, cada alma escolheu o seu nascimento.
A resposta
O mesmo verso termina: “seja qual for o ato que pratique, isso colherá”: colher, e não escolher. O desejo não é consentimento ao seu fruto: um ladrão quer o ouro, e não a prisão. Ninguém deseja nascer cego. Uma escolha que ninguém se lembra de ter feito não pode ser mostrada como escolha. E os textos desta página falam de castigo, e não de escolha. O Senhor da Gita diz que lança “continuamente” os cruéis em ventres demoníacos. Manu fala de crimes e de “marcas vergonhosas”. Se o nascimento foi escolhido, não foi um castigo, e esses textos erram ao chamá-lo assim. Se foi um castigo, não foi escolhido. O islã não diz aos cegos que eles escolheram a cegueira. Chama a dificuldade de prova enviada por Deus (﷾), e Ele a recompensa.
Onde fica — O desejo que dá o seu fruto ainda é colher, e não consentir. Os textos chamam esses nascimentos de castigo, e um castigo não é uma escolha.
Bhagavad Gita 18:66 — capítulo 18, verso 66
“Abandonando todos os deveres, vem a mim como (teu) único refúgio. Eu te livrarei de todos os pecados. Não te aflijas.”
Citado para
O karma não é um tribunal, mas uma escola. Ele torna as pessoas boas, porque todo ato volta a quem o praticou. Cada vida é uma chance de crescer em direção à libertação, e a graça do Senhor pode terminar a cadeia: “Eu te livrarei de todos os pecados.”
A resposta
Uma razão para fazer o bem não é o mesmo que justiça feita. E uma lição esquecida a cada nascimento não ensina nada, porque o aluno nunca sabe o que lhe estão ensinando. O islã dá o mesmo motivo, com o registro guardado: “quem houver feito um peso de átomo de mal o verá”. Ele mesmo o vê. A promessa da Gita mostra que o Senhor pode perdoar, e o Alcorão também o diz: “não vos desespereis da misericórdia de Allah”. Mas no islã o chamado ao arrependimento vem nesta única vida, a uma pessoa que sabe de que está se afastando. A graça pode terminar uma pena, mas não pode mostrar que a pena foi merecida. O perdão de um crime que ninguém pode nomear não prova que o crime foi cometido.
Onde fica — O karma pode dar um motivo, mas uma lição de que ninguém se lembra não ensina nada, e uma pena que ninguém pode nomear não é justiça.
Alcorão 42:30 — Surata Ash-Shura (A Consulta), versículo 30
“E o que quer que vos alcance de desgraça, é pelo que vossas mãos cometem. E Ele indulta a muitos.”
Citado para
O próprio Alcorão diz: “o que quer que vos alcance de desgraça, é pelo que vossas mãos cometem.” Isso é karma: o sofrimento vem dos próprios atos.
A resposta
O versículo fala às pessoas sobre atos que elas praticaram nesta vida. No mesmo fôlego, diz: “Ele indulta a muitos”. O Profeta (ﷺ) ensinou que nenhuma dificuldade atinge um crente, nem mesmo a picada de um espinho, sem que alguns dos seus pecados sejam apagados por ela. A dificuldade limpa o registro. Não é uma pena escondida de quem a carrega. O versículo nunca faz do corpo de um recém-nascido um veredicto sobre uma vida anterior, e o Alcorão exclui isso: ninguém carrega o fardo de outro. Nem o islã diz que toda dificuldade vem do pecado. Deus (﷾) eleva alguns acima de outros “para pôr-vos à prova”. E o Profeta (ﷺ) prometeu o Paraíso ao crente que perde a vista e é paciente.
Onde fica — O 42:30 fala de atos praticados nesta vida, junto com o perdão. Nunca faz do corpo de uma criança uma pena por uma vida passada.
Alcorão 6:165 — Surata Al-Anam (Os Rebanhos), versículo 165
“E Ele é Quem vos fez sucessores, na terra, e elevou, em escalões, alguns de vós acima de outros, para pôr-vos à prova, com o que vos concedeu. Por certo, teu Senhor é Destro na punição e, por certo, Ele é Perdoador, Misericordiador.”
Citado para
As crianças também sofrem no islã, e o islã chama isso de prova. Então Deus inflige dor aos inocentes sem razão. O karma pelo menos diz que o sofrimento foi merecido.
A resposta
Uma prova e uma pena são coisas diferentes. Uma pena olha para trás, para um crime, e marca quem a carrega. Uma prova olha para frente, para uma recompensa, e quem a carrega é honrado. Um recém-nascido não está sendo julgado de modo nenhum. Nenhum pecado é posto sobre ele, a sua dor é vista e pesada, e as crianças que morrem vão para o Paraíso. A prova na dor de uma criança é para os que a amam e cuidam dela. Deus (﷾) diz que porá as pessoas à prova com a “escassez de riquezas e de pessoas e de frutos”. Ele dá boas novas aos pacientes. O Alcorão diz: “Não há falta sobre o cego e não há falta sobre o coxo e não há falta sobre o enfermo”. Manu diz que os cegos são “desprezados pelos virtuosos”. Diz que um cego num banquete fúnebre faz quem o oferece perder a recompensa de noventa convidados. O Alcorão repreendeu o próprio Profeta (ﷺ) por franzir o rosto diante de um cego. Allah (﷾) promete o Paraíso a quem perde a vista e é paciente. O Profeta (ﷺ) ofereceu o Paraíso a uma mulher com epilepsia que escolheu a paciência. No Dia do Juízo, todo mal é pesado, até o peso de um grão de mostarda. O merecido do karma é uma afirmação que ninguém pode verificar. A promessa do islã é que nenhuma dor é desperdiçada e nenhuma fica sem recompensa. A página sobre por que Deus (﷾) permite o sofrimento expõe o resto.
Onde fica — No islã, o sofrimento de uma criança não é uma pena: a criança é recompensada, e a prova é para os que estão ao seu redor.
Alcorão 72:23 — Surata Al-Jinn (Os Jinns), versículo 23
““Exceto uma transmissão vinda de Allah e Suas Mensagens. E quem desobedece a Allah e a Seu Mensageiro, por certo, terá o fogo da Geena; nela será eterno, para todo o sempre.””
Citado para
O islã ameaça com o Inferno eterno pelos pecados de uma vida curta. O karma é mais bondoso: os seus infernos terminam, e cada alma recebe chance após chance.
A resposta
No islã, ninguém é castigado por uma mensagem que nunca lhe chegou. Deus (﷾) diz: “não é admissível que castiguemos a quem quer que seja, até que lhe enviemos um Mensageiro”. Cada pessoa é julgada pelo seu próprio registro, que ela lê. A misericórdia de Deus (﷾) prevalece sobre a Sua ira. Uma boa ação é escrita dez vezes, e uma má ação só como ela mesma. Ele perdoa todos os pecados aos que se voltam para Ele: “não vos desespereis da misericórdia de Allah”. Nem o Inferno é um preço contado por pecado. O Alcorão diz dos que estão diante do Fogo: “se os houvessem levado à vida terrena, haveriam reincidido no de que foram coibidos”. O Inferno responde ao que uma pessoa fez de si mesma, depois de toda advertência e toda oferta de misericórdia. E “Allah não faz injustiça nem mesmo do peso de um átomo”. Nem os infernos hindus são sempre temporários. Madhva, um mestre do Vedanta de cerca do século XIII, fundou a escola Dvaita. Ele cita textos que conta como escritura: os que odeiam o Senhor caem no inferno da treva e nunca saem dele. Cita também textos que nomeiam “os dois infernos eternos”. Como relata o estudioso hindu R. G. Bhandarkar (1837-1925), a escola de Madhva sustenta que algumas almas estão “sempre passando pelo círculo das existências”. Outras são “aptas para a condição de treva”. E as chances do karma são tomadas sem memória da lição, sob uma pena que ninguém explicou. A página sobre as pessoas que nunca ouviram falar do islã expõe o resto.
Onde fica — O islã não castiga ninguém antes de uma advertência, julga cada um pelo seu próprio registro e perdoa todo pecado de que alguém se arrepende. A escola de Madhva, no Vedanta, também ensina um inferno eterno.
Stevenson, 1993, marcas de nascença e alegações de vidas passadas
Relata que, de 895 crianças que afirmavam lembrar uma vida anterior, ou que os adultos pensavam ter tido uma, 309 (35 por cento) tinham marcas de nascença ou defeitos congênitos que se dizia corresponderem a uma ferida, em geral fatal, ou outra marca no falecido cuja vida a criança dizia lembrar; em 43 de 49 casos em que se obteve um documento médico, em geral um laudo de necropsia, este confirmou a correspondência. Tais crianças, escreve, foram encontradas onde quer que se procurou, mas mais facilmente nos países do sul da Ásia.
Citado para
Crianças na Índia e em outros lugares se lembram de vidas passadas. Pesquisadores como Ian Stevenson, um psiquiatra da Universidade da Virgínia, documentaram centenas de casos, alguns com marcas de nascença que correspondem a feridas na pessoa lembrada. O renascimento é um fato, então o karma é real.
A resposta
Admitamos cada relato, e eles mostram no máximo uma volta, e não uma pena justa. A própria conclusão de Stevenson é que se dizia que as marcas das crianças correspondiam a feridas, em geral fatais, na pessoa lembrada. Isso é uma ferida levada adiante, e não um castigo por um crime. A marca cai sobre quem foi ferido, e não sobre quem o feriu. É o contrário do esquema de Manu, em que a perda da fala castiga o roubo das palavras do Veda. Stevenson também encontrou esses casos mais facilmente no sul da Ásia, onde já se crê no renascimento. E o renascimento não é o ensinamento dos hinos fúnebres do Rig Veda. Eles mandam os mortos a Yama e aos Pais “no mais alto céu”, e não de volta a um ventre.
Onde fica — Mesmo que cada relato fosse verdadeiro, mostraria uma volta, e não justiça: as marcas correspondem a feridas sofridas, e não a crimes cometidos.
Alcorão 7:172-173 — Surata Al-Araf (Os Cimos), versículos 172-173
“E lembra-te, Muhammad, de quando teu Senhor tomou, dos filhos de Adão - do dorso deles - seus descendentes e fê-los testemunhas de si mesmos, dizendo-lhes: “Não sou vosso Senhor?” Disseram: “Sim, testemunhamo-lo.” Isso, para não dizerdes, no Dia da Ressurreição: “Por certo, a isto estávamos desatentos” Ou, para não dizerdes: “Apenas, nossos pais idolatraram antes, e somos sua descendência, após eles. Tu nos aniquilas pelo que fizeram os defensores da falsidade?””
Citado para
O islã prende cada alma a uma aliança feita antes do nascimento, de que ninguém se lembra. Isso não é melhor do que o karma por uma vida passada de que ninguém se lembra.
A resposta
Os próprios versículos dão o propósito da aliança. Ela foi tomada “para não dizerdes, no Dia da Ressurreição: ‘Por certo, a isto estávamos desatentos’”. Nem poderiam culpar os seus pais pelos seus falsos deuses. É um testemunho posto em cada alma, e não uma acusação feita contra ela. Ninguém é castigado só por isso: “não é admissível que castiguemos a quem quer que seja, até que lhe enviemos um Mensageiro”. O que a aliança deixa em cada pessoa é o conhecimento de Deus (﷾), a natureza segundo a qual Ele fez a humanidade. O Profeta (ﷺ) disse que toda criança nasce sobre ela. O ato esquecido do karma é um crime castigado agora, num corpo, sem registro. A aliança é um conhecimento de Deus (﷾) chamado agora, por um mensageiro, com uma vida inteira para responder. E ninguém carrega o fardo de outro.
Onde fica — A aliança é o conhecimento de Deus (﷾) em cada alma, e não um crime esquecido. Ninguém é castigado por ela até que um mensageiro o tenha advertido.
Alcorão 57:22-23 — Surata Al-Hadid (O Ferro), versículos 22-23
“Nenhuma desgraça ocorre, na terra, nem em vós mesmos, sem que esteja em um Livro antes mesmo de Nós a criarmos. Por certo, isso, para Allah é fácil. Assim é, para que vos não aflijais com o que perdestes nem jubileis com o que Ele vos concedeu. E Allah não ama a nenhum presunçoso, vanglorioso,”
Citado para
O Alcorão diz que nenhuma desgraça acontece sem que esteja registrada num decreto antes de vir. Então o islã também fixa todo sofrimento de antemão, e não dá razão melhor para ele do que o karma. O karma pelo menos diz que ele foi merecido.
A resposta
O versículo seguinte dá o propósito. É “para que vos não aflijais com o que perdestes nem jubileis com o que Ele vos concedeu”. É dito para consolar quem sofre, e não para acusá-lo. Um decreto do que vai acontecer é o conhecimento de Deus (﷾), escrito de antemão. Não é uma pena por um ato praticado numa vida de que ninguém se lembra. No islã, a dificuldade é uma prova que é recompensada. Ela apaga pecados, e ao crente que perde a vista e é paciente se promete o Paraíso. As Upanishads têm um decreto mais duro. Shankara cita a Kaushitaki para provar que o Senhor leva em conta o mérito. Ela diz que o Senhor faz “aquele que deseja rebaixar destes mundos praticar uma má obra”. Os comentadores explicam que o mérito ou demérito anterior de um ser “determina a qualidade específica das ações que ele pratica na sua existência presente”. Então não só o sofrimento, mas o próprio pecado faz parte da pena por um passado esquecido. O Alcorão também diz que, quando um povo se desviou, “Allah desviou-lhes os corações”. Mas ali a cadeia tem um começo. Aquele povo sabia que Moisés era o mensageiro de Deus (﷾), e se afastou primeiro, por seu próprio ato. Toda pessoa nasce na fitra e é advertida por um mensageiro. Deus (﷾) não descaminha ninguém “senão os perversos”. Na Kaushitaki, tal como os comentadores a leem, não há um primeiro afastamento: todo mau ato responde a um anterior, para trás sem fim. A página sobre se o islã é fatalista expõe o resto.
Onde fica — O decreto do Alcorão consola e é recompensado, e o seu desvio começa com o próprio afastamento da pessoa. Na Kaushitaki, tal como os comentadores a leem, até o pecado é uma pena por um passado esquecido.
Shankara, comentário ao Brahma Sutra 2.1.35 — Sacred Books of the East 34, pp. 359-360
“Mas, levanta-se uma objeção, a passagem “Só o Ser existia isto no princípio, um, sem segundo” afirma que antes da criação não havia distinção e, por conseguinte, nenhum mérito por causa do qual a criação pudesse ter se tornado desigual. E, se supusermos que o Senhor foi guiado nas suas dispensações pelas ações dos seres vivos posteriores à criação, caímos no raciocínio circular de que a obra depende da diversidade da condição de vida, e a diversidade da condição, por sua vez, da obra. Pode-se considerar que o Senhor age levando em conta o mérito religioso depois que a distinção surgiu; mas, como antes disso a causa da desigualdade, a saber, o mérito, não existia, segue-se que a primeira criação deve ter sido livre de desigualdades. Respondemos a esta objeção observando que o mundo da transmigração não tem começo. A objeção seria válida se o mundo tivesse um começo; mas, como não tem começo, o mérito e a desigualdade são, como a semente e o broto, causados e também causas, e por isso não há objeção lógica à sua operação.”
Citado para
Shankara respondeu a isso há muito tempo. O mundo do renascimento não tem começo, então o mérito e a desigualdade são “como a semente e o broto, causados e também causas”. Toda explicação tem de parar em algum lugar, e uma série sem primeiro membro não é contradição.
A resposta
O próprio Shankara expõe a dificuldade: “a obra depende da diversidade da condição de vida, e a diversidade da condição, por sua vez, da obra”. A sua resposta torna o círculo infinito; não o quebra. Cada nascimento é explicado por um anterior, para sempre. Então a cadeia nunca explica por que existe sofrimento, nem por que a cadeia de uma alma passa pela cegueira e a de outra pelo conforto. Os comentadores acrescentam que o mérito ou demérito anterior “determina a qualidade específica das ações que ele pratica na sua existência presente”. Então todo ato é moldado por uma pena anterior, sem um primeiro ato feito livremente por uma alma de registro limpo. Assim, merecido não tem onde se apoiar. A objeção não é que uma série sem fim seja impossível, nem se apoia em o universo ter um começo no tempo. É que uma cadeia sem fim de penas nunca contém o ato livre que tornaria justa alguma delas. A explicação do Alcorão para num Deus (﷾) sábio e justo, e não numa série cega. Ele “criou a morte e a vida, para pôr à prova qual de vós é melhor em obras”, e recompensa os pacientes “sem conta”.
Onde fica — Uma cadeia sem começo empurra a pergunta para trás para sempre. Nunca fornece o primeiro ato livre que torna uma pena merecida.
Shankara, comentário ao Brahma Sutra 2.3.42 — Sacred Books of the East 38, p. 60
“De modo nenhum, respondemos; pois, embora a atividade da alma não seja independente, ainda assim a alma age. O Senhor de fato a faz agir, mas ela age por si mesma. Além disso, o Senhor, ao fazê-la agir agora, leva em conta os seus esforços anteriores, e fê-la agir numa existência anterior levando em conta os seus esforços antes dessa existência; um regresso contra o qual, considerando a eternidade do samsâra, não se podem levantar objeções.”
Citado para
Toda alma age livremente. Shankara diz: “O Senhor de fato a faz agir, mas ela age por si mesma.” Um criminoso com antecedentes ainda comete o seu próximo crime livremente, e merece a sua pena. Não é preciso um primeiro ato: cada nascimento responde a um ato livre da vida anterior.
A resposta
A passagem completa de Shankara diz mais. A atividade da alma “não seja independente”, diz ele. O Senhor, ao fazê-la agir agora, “leva em conta os seus esforços anteriores”. Ele os causou “levando em conta os seus esforços antes dessa existência”. Shankara chama isso “um regresso”. Então todo esforço é moldado pela retribuição de um esforço anterior, para trás sem fim. Os antecedentes de um criminoso começaram com um primeiro crime, cometido por um homem que não tinha nenhum. Aqui não há tal crime nem tal homem. Cada alma entra em cada vida já curvada por penas de que não se lembra. O Alcorão também diz: “não o querereis, a não ser que Allah” o queira, então a questão não é se Deus (﷾) está por trás de todo ato. É se cada ato já é a retribuição de um anterior. No islã, toda criança começa na fitra, inteira, e os seus primeiros atos livres são seus. Deus (﷾) a julga por eles, depois de uma advertência, com o registro diante dela.
Onde fica — O ela age por si mesma de Shankara vem com “um regresso”: cada esforço é movido levando em conta um anterior, para trás sem fim. A cadeia ainda não tem um primeiro ato livre.
Milindapanha 2.2.6 — As perguntas do rei Milinda, livro II, capítulo 2, pergunta 6
“Assim mesmo, grande rei, os atos bons ou maus são feitos por este nome-e-forma, e outro renasce. Mas esse outro não fica por isso livre dos seus atos (do seu Karma).”
Citado para
Os budistas não ensinam nenhum eu que passe de uma vida para outra. Quem renasce não é “Nem o mesmo nem outro”, mas não fica livre dos atos. Um homem que rouba mangas nascidas das mangas de outro ainda é ladrão. E o karma é intenção: “É a intenção que chamo atos.” Um acidente não produz karma.
A resposta
O ladrão de mangas é culpado porque ele mesmo pegou as mangas. O dono pode levá-lo diante do rei e acusá-lo. A ilustração toma emprestado um tribunal com uma acusação e um ladrão que sabe o que fez, e o renascimento não tem nem uma coisa nem outra. Se quem renasce não é “Nem o mesmo nem outro”, então quem sofre não é simplesmente quem pecou. Essa é a injustiça que esta página descreve. A intenção explica por que um ato é bom ou mau. Não explica por que esta intenção deve se tornar este corpo, e nesta medida. O Buda chamou os resultados dos atos de uma das quatro coisas que são “impensáveis”. No islã, cada alma responde pelas suas próprias intenções, na sua própria vida, e lê o seu próprio registro.
Onde fica — Se quem renasce não é nem o mesmo nem outro, ninguém pode mostrar que ele praticou os atos que carrega. Um karma cujos resultados são “impensáveis” é uma pena que ninguém pode ler.
Uttaradhyayana Sutra 13.23 — lição 13 (Citra e Sambhuta), verso 23
“Nem os seus parentes, nem os seus amigos, nem os seus filhos, nem os seus familiares partilharão o seu sofrimento; só ele tem de suportá-lo; pois o Karman segue quem o pratica.”
Citado para
Os jainistas não precisam de Senhor nem de juiz. O karma prende a alma pelas suas próprias paixões. Cada tipo dá o seu próprio fruto: dor ou prazer, a duração da vida, a família em que se nasce. Ninguém mais pode carregá-lo: “o Karman segue quem o pratica”. E a alma se liberta pelo conhecimento correto, a fé, a conduta e as austeridades.
A resposta
O verso jainista e o Alcorão concordam numa coisa: ninguém pode carregar o fardo de outro. Mas, para isso ser justiça, o autor precisa conhecer o seu ato. O Uttaradhyayana compara o karma a um ladrão esmagado na brecha que ele mesmo cavou. Esse ladrão conhece a parede que arrombou. Uma criança nascida cega não conhece brecha nenhuma, e ninguém pode lhe mostrar uma. Se cada tipo de karma dá o seu fruto pela sua própria natureza, o karma é um mecanismo, e um mecanismo não é nem justo nem injusto. A mesma escritura fala de uma miséria “que surge desde um tempo sem começo”. Também conta entre os oito um karma que leva à ilusão. Então as paixões que prendem a alma foram movidas por um karma preso antes, e nenhum primeiro ato livre começou a cadeia. O islã também chama cada alma à crença correta e à conduta correta. Mas começa cada alma limpa, numa só vida, e Deus (﷾) lhe mostra o registro.
Onde fica — O karma jainista mantém cada alma presa aos seus próprios atos, mas não mostra nenhum deles, e não tem um primeiro ato livre. Uma medida sem juiz é um mecanismo, e não justiça.
Milindapanha 3.4.2 — As perguntas do rei Milinda, livro III, capítulo 4, pergunta 2
“O rei disse: “Por que é, Nâgasena, que nem todos os homens são iguais, mas alguns vivem pouco e alguns muito, alguns são doentes e alguns sadios, alguns feios e alguns belos, alguns sem influência e alguns de grande poder, alguns pobres e alguns ricos, alguns de baixo nascimento e alguns de alto nascimento, alguns estúpidos e alguns sábios?” O Ancião respondeu: “Por que é que nem todos os vegetais são iguais, mas alguns são azedos, e alguns salgados, e alguns picantes, e alguns ácidos, e alguns adstringentes, e alguns doces?” “Imagino, Senhor, que é porque vêm de diferentes tipos de sementes.” “E assim mesmo, grande rei, devem ser explicadas as diferenças que mencionaste entre os homens. Pois foi dito pelo Abençoado: ‘Os seres, ó brâmane, têm cada um o seu próprio Karma, são herdeiros do Karma, pertencem à tribo do seu Karma, são parentes pelo Karma, têm cada um o seu Karma como senhor protetor. É o Karma que os divide em baixos e altos e divisões semelhantes.’””
Citado para
Os budistas não precisam de Senhor. O karma age por si mesmo, como as sementes decidem o sabor das plantas que nascem delas. “É o Karma que os divide em baixos e altos.” E nem todo sofrimento é karma. As objeções sobre o julgamento de um Senhor não nos atingem.
A resposta
Então o karma ou é um juiz ou é um processo. Se é um processo, como sementes crescendo segundo a sua espécie, não é justiça de modo nenhum. Uma semente azeda não merece o seu azedume. Uma lei que não sabe nada do certo e do errado não pode ser nem justa nem injusta. Se ele ajusta cada nascimento ao merecimento moral, tem de pesar a intenção e o arrependimento, e ajustar o corpo à culpa. Isso é trabalho de um juiz. O próprio Shankara argumentou que o efeito posterior invisível de um ato “não pode agir a menos que seja movido por algum ser inteligente”. As objeções da memória, da cadeia sem fim e da falta de um primeiro ato livre não precisam de um Senhor. Valem onde quer que se diga que o karma divide os seres em baixos e altos. O Milindapanha também diz que muito sofrimento vem de outras causas que não o karma. Então o karma não explica esses sofrimentos de modo nenhum. O próprio Milindapanha diz que ninguém sem a visão de um Buda pode saber até onde o karma alcança. O registro está fechado para quem sofre.
Onde fica — O karma sem um Senhor ou é um processo cego, e por isso não é justiça, ou é um julgamento sem juiz. O islã nomeia o Juiz, mostra o registro e recompensa toda dificuldade.
Perspectivas
O karma como retribuição do Senhor (Vedanta)
O karma não é acaso. O Senhor onisciente dá a cada criatura o fruto que os seus próprios atos merecem, como a chuva faz cada semente crescer segundo a sua espécie. A desigualdade das criaturas não é culpa do Senhor, mas o fruto do seu mérito e demérito. A cadeia das vidas não tem começo, então toda condição foi merecida por atos anteriores, como a semente e o broto. O eu que sofre é o mesmo eu eterno que agiu; só o corpo é novo. O Senhor o faz agir, mas ele age por si mesmo. A cadeia termina na libertação, pelo conhecimento e pela graça do Senhor.
Shankara e Ramanuja sobre o Brahma Sutra; as Upanishads, a Gita e Manu
O Brahma Sutra diz que o fruto das obras vem do Senhor. Shankara e Ramanuja explicam que os atos passam quando feitos, então não podem trazer os seus próprios resultados.
Réplica
Admitamos que um ato passa e não pode trazer o seu próprio resultado. Então a retribuição do Senhor é uma pena, e uma pena precisa de uma acusação e de um registro. No islã, cada pessoa ouve: “Lê teu livro”.
O Senhor não pode ser censurado pela desigualdade das criaturas, porque ele leva em conta os seus atos bons e maus. Ele é como a chuva, que cai igualmente sobre todas as sementes.
Réplica
Admitamos que a chuva cai igualmente sobre todas as sementes e cada uma cresce segundo a sua espécie. Mas uma criança não é uma semente. Os textos chamam o seu nascimento de retribuição por atos, e nenhum ato dela é nomeado ou mostrado.
O mundo do renascimento não tem começo. Então as boas obras e a desigualdade são como a semente e o broto: cada uma é causada pela outra, e cada uma causa a outra.
Réplica
Admitamos que uma série sem início não é impossível. Mas uma cadeia sem fim de penas nunca contém o primeiro ato livre que tornaria alguma delas merecida.
O Senhor faz a alma agir levando em conta os seus esforços anteriores, mas a alma age por si mesma.
Réplica
Shankara acrescenta que o Senhor, ao fazê-la agir agora, “leva em conta os seus esforços anteriores”. Então isso volta para trás para sempre, “um regresso”. Cada ato responde a um anterior, e nenhum primeiro ato livre é jamais alcançado. No islã, cada criança começa na fitra, e os seus primeiros atos livres são seus.
A Chandogya Upanishad e a Gita ensinam que a boa e a má conduta levam a bons e maus nascimentos.
Réplica
Admitamos que esses textos o dizem. Não dizem a quem nasce qual ato mereceu o seu nascimento, e não lhe mostram nada. Uma pena que ninguém pode ler não pode ser examinada nem respondida.
O eu encarnado deixa os corpos velhos e toma outros novos, como um homem troca de roupa.
Réplica
O eu não leva nenhuma memória da vida passada, e não há registro que alguém possa verificar. Então nada mostra que esta criança praticou aquele ato. O Alcorão mantém cada alma presa aos seus próprios atos, na sua própria vida. E toda criança nasce na fitra, a natureza pura que Deus (﷾) lhe deu.
O Senhor dá a libertação. Na Gita ele diz: “Eu te livrarei de todos os pecados”, e Ramanuja fala da Libertação concedida pelo Senhor.
Réplica
Admitamos que o Senhor pode perdoar. O Alcorão também o diz: “não vos desespereis da misericórdia de Allah”. Mas a graça não pode mostrar que uma pena foi merecida. No islã, o chamado ao arrependimento vem nesta única vida, a uma pessoa que sabe de que se afasta.
Os atos produzem o seu próprio fruto (Mimamsa)
O próprio ato traz o seu fruto. Antes de passar, ele deixa um efeito posterior invisível, o apurva, que produz o resultado mais tarde. A escritura ordena o sacrifício em vista de uma recompensa, e a ordem seria inútil se o ato não trouxesse o seu próprio fruto. Um Senhor que distribuísse os resultados seria parcial e cruel.
Jaimini, tal como o Brahma Sutra e Shankara relatam a sua opinião
O Brahma Sutra relata a opinião de Jaimini de que o mérito religioso produz os frutos das ações.
Réplica
Admitamos que Jaimini não queria Senhor nenhum. Então o karma é um processo cego, nem justo nem injusto. O próprio Shankara disse que o efeito posterior invisível “não pode agir a menos que seja movido por algum ser inteligente”.
Nessa opinião, o resultado nasce só do ato, pelo apurva invisível. Um Senhor que distribuísse os resultados seria acusado de parcialidade e crueldade.
Réplica
Admitamos a preocupação. O islã a responde: dons desiguais são provas, e não veredictos (6:165), e toda dificuldade é vista e recompensada. “Allah não faz injustiça nem mesmo do peso de um átomo” (4:40), e Ele mostra a cada pessoa o seu próprio registro. O fruto de um ato sem juiz é um mecanismo, e não justiça.
O karma sem um Senhor (budista)
Os seres são herdeiros dos seus próprios atos, e um ato é uma intenção. Nenhum deus distribui recompensas e castigos. O karma divide os seres em altos e baixos, como a semente decide o sabor da planta. Nem todo sofrimento vem do karma, e só um Buda pode ver até onde o karma alcança. Nenhum eu imutável passa de uma vida para outra. Quem nasce de novo não é nem a mesma pessoa nem outra.
O Milindapanha e os discursos em páli
Perguntado por que os homens nascem desiguais, Nagasena responde que as plantas diferem porque as suas sementes diferem. Ele cita o Buda: é o karma que divide os seres em baixos e altos.
Réplica
Admitamos que as sementes decidem o sabor de uma planta. Mas uma semente azeda não merece o seu azedume. Se o karma é só um processo como esse, não é justiça. Se ele ajusta cada nascimento à culpa, precisa de um juiz.
O Buda chama a própria intenção de ato.
Réplica
Admitamos que a intenção torna um ato bom ou mau. Ela não explica como uma intenção cruel se torna um olho cego ou uma vida curta, na medida certa. Isso exige uma escala mantida por um juiz.
Muito sofrimento vem de causas que não são o karma. E ninguém sem a visão de um Buda pode dizer até onde o karma alcança.
Réplica
Admitamos que nem todo sofrimento é karma. Mas, onde é, “Ninguém sem a visão de um Buda pode fixar o alcance” dele. Então nenhum sofredor pode saber se está pagando por um ato. O islã diz a todo crente que sofre a mesma coisa: isso apaga pecados, e é recompensado.
Quem renasce não é nem o mesmo nem outro, mas não fica livre dos atos.
Réplica
Se quem renasce não é “Nem o mesmo nem outro”, então quem sofre não é simplesmente quem praticou o ato. Nada mostra que ele deve responder por ele.
O karma sem um Senhor (jainista)
A alma está presa por oito tipos de karma, e, presa por eles, gira e gira no círculo dos nascimentos. O karma decide a dor e o prazer, a duração da vida e a família em que se nasce. Nenhum fazedor governa o mundo. Cada alma colhe só os seus próprios atos, e ninguém pode partilhá-los: o karma segue quem o pratica. O conhecimento correto, a fé, a conduta e as austeridades libertam a alma de uma miséria que não tem começo.
O Uttaradhyayana Sutra do cânone jainista
A alma está presa por oito tipos de karma, que a fazem girar no círculo dos nascimentos. Eles decidem a dor e o prazer, a duração da vida e a linhagem familiar.
Réplica
Admitamos os oito tipos de karma. Um karma que fixa a dor, a vida e a família pela sua própria natureza é um mecanismo. Um mecanismo não é nem justo nem injusto, e não mostra à alma nenhum dos seus atos.
Ninguém partilha o sofrimento de outro, porque o karma segue quem praticou o ato. Ninguém escapa do resultado das suas próprias ações.
Réplica
O islã concorda que ninguém carrega o fardo de outro. Mas a justiça exige que se mostre ao autor o seu ato. O ladrão do verso jainista conhece a parede que arrombou; uma criança nascida cega não conhece brecha nenhuma.
Um hino jainista nega qualquer fazedor que aja por livre vontade. Um verso jainista chama de cativeiro a alma tomar corpos adequados às suas ações passadas.
Réplica
Admitamos que este hino nega um fazedor. Então ninguém julga, e a alma “assume corpos adequados às suas ações passadas” por uma lei, e não por uma audiência. O islã nomeia o Juiz, que mostra a cada alma o seu registro.
O conhecimento correto, a fé, a conduta e a dura renúncia de si são o caminho da felicidade duradoura. Levam para fora de uma miséria que dura desde um tempo sem começo.
Réplica
O islã também chama cada alma à crença correta e à conduta correta. Mas começa cada alma limpa, numa só vida, e Deus (﷾) lhe mostra o registro. No verso jainista, a miséria não tem começo, então nenhum primeiro ato livre a começou.
A perspectiva islâmica
Toda pessoa vive uma só vida, nasce pura e é julgada uma vez, por Deus (﷾), com o seu próprio registro diante de si. Ninguém carrega a culpa de outro. E ninguém é castigado antes que uma advertência lhe tenha chegado. A dificuldade e a deficiência são provas. Deus (﷾) as honra e as recompensa. Nunca são uma pena por um passado de que ninguém se lembra.
No Dia do Juízo, cada pessoa lê o seu próprio registro, que não deixa nada de fora. E o seu próprio corpo testemunha.
Nenhuma alma carrega o fardo de outra. Deus (﷾) não castiga ninguém até que um mensageiro o tenha advertido, para que ninguém tenha um argumento contra Ele.
O Alcorão diz que não há falta sobre o cego, o coxo ou o enfermo. Ele repreendeu o Profeta (ﷺ) por franzir o rosto diante de um cego.
O Profeta (ﷺ) prometeu o Paraíso ao crente que perde a vista e é paciente. Prometeu-o também a uma mulher com epilepsia que escolheu ser paciente.
Toda criança nasce sobre a fitra, e as crianças que morrem estão no Paraíso. Num relato, os filhos dos idólatras também estão lá.
As diferenças entre as pessoas são provas, e a própria vida foi criada para pôr à prova quem é melhor em obras.
Há atos de que ninguém se lembra, que nenhum registro mostra e que nenhum primeiro ato livre começou. Uma pena por tais atos não é justiça.