Resposta curta
Só na medida em que Deus (﷾), o único que conhece todas as coisas, a dá a conhecer. O ensinamento jainista sustenta que só quem conhece todas as coisas vê toda a verdade. Diz que Mahavira, o último Tirthankara (mestre), se tornou tal conhecedor. Uma escritura dos Svetambaras, uma das principais tradições jainistas, diz que ele “conhecia e via todas as condições de todos os seres vivos do mundo”. O ensinamento jainista dos muitos aspectos, o anekantavada, acrescenta que quem não tem esse conhecimento vê só uma parte. Mas os jainistas sustentam que, nesta parte do mundo, ninguém alcança esse conhecimento nesta era. Apoiam-se em livros que as duas tradições jainistas dizem ter se perdido em parte, e que elas não têm em comum. O islã ensina que nenhuma criatura, nem mesmo um profeta, conhece todas as coisas. Deus (﷾) revelou o Alcorão ao Profeta Muhammad (ﷺ), que o transmitiu, e Deus (﷾) prometeu guardá-lo.
Explicação completa
O ponto de partida jainista: alguém que conhece tudo
Os jainistas sustentam que Mahavira, o último Tirthankara, ou Jina, se tornou um Kevalin, um onisciente. O Kalpa Sutra é uma escritura dos Svetambaras, uma das duas principais tradições jainistas. Diz que ele “conhecia e via todas as condições de todos os seres vivos do mundo”. O Acaranga, também Svetambara, diz o mesmo. Os Digambaras, a outra tradição principal, sustentam esse ensinamento a partir dos seus próprios livros. O estudioso jainista Padmanabh Jaini descreve esse conhecimento como a consciência de toda coisa existente em todas as suas qualidades e estados. Cita uma obra Digambara, o Tattvarthasara de Amritacandra. Então o ensinamento jainista sustenta que toda a verdade existe, e que quem conhece todas as coisas a vê.
“ele, o Arhat, para quem não há segredo, conhecia e via todas as condições de todos os seres vivos do mundo, o que pensavam, falavam ou faziam em qualquer momento.”
“ele viu e conheceu todas as condições em todo o mundo de todos os seres vivos.”
Jaini descreve o kevala, o mais alto dos cinco tipos de conhecimento no ensino jainista, como onisciência absoluta, que envolve a consciência de toda coisa existente em todas as suas qualidades e modos (estados) (p. 122). Para isso, cita em sânscrito uma obra digambara, o Tattvarthasara 1.30-31 de Amritacandra, cujas palavras descrevem o conhecimento kevala como sem auxílio (asahaya), sem obstrução (niravarana) e que alcança todas as coisas (sarvabhavaga) (p. 122, n. 43). Explica que a onisciência (kevalajnana) é o estado aperfeiçoado da própria qualidade de conhecimento da alma (p. 91).
Muitos aspectos: por que uma visão parcial não basta
Os mestres jainistas sustentam que toda coisa tem inumeráveis qualidades e estados que mudam. Então uma pessoa comum, que não é onisciente, não pode ver uma coisa na sua totalidade. Isso é o anekantavada, o ensinamento dos muitos aspectos. Uma visão parcial se chama naya, um ponto de vista. Um naya é válido como visão parcial. Torna-se falso quando é sustentado como toda a verdade, o que os jainistas chamam de ekanta, unilateralidade. Siddhasena Divakara, que as duas tradições reivindicam, escreveu um tratado sobre isso. O syadvada acrescenta a uma afirmação a palavra syat, que quer dizer de certo modo, para mostrar sob que aspecto ela vale.
Jaini explica que, no ensino jainista, toda coisa existente é uma substância com qualidades, e as qualidades passam por modos que mudam. Como as qualidades são inumeráveis e os seus modos infinitos, não é possível a uma pessoa comum, não onisciente, perceber uma coisa existente na sua totalidade. O termo jainista anekanta, aspectos múltiplos, exprime esta complexidade (p. 91). Os jainistas afirmam que os sistemas não jainistas são defeituosos porque veem o ser num só aspecto (ekanta), por exemplo como só eterno ou só mutável (pp. 91-92). As doutrinas das outras escolas são invariavelmente descritas como erradas porque são unilaterais, embora os jainistas sustentem que, da perspectiva adequada, podem ser encaixadas no sistema jainista (p. 90).
Jaini escreve que, ao condenar as outras escolas como unilaterais, o jainista não diz que as suas opiniões estão totalmente erradas. São válidas quando vistas como nayas, expressões parciais da verdade, e só se tornam falsas quando se sustenta que têm validade absoluta e exclusiva (p. 93). A sua nota cita em sânscrito o comentário do svetambara Mallisena ao verso 28 do Anyayogavyavacchedika de Hemacandra. As suas palavras dizem que “existe” (sat) é um naya, enquanto “só existe” (sad eva) é um durnaya, um naya defeituoso, que põe de lado as outras propriedades da coisa (p. 93, n. 8). O syadvada qualifica uma afirmação com syat, melhor traduzido por “em certo aspecto”, e eva, “de fato” (p. 94).
Jaini escreve que Siddhasena Divakara (século V), um escritor reivindicado igualmente pelas duas tradições jainistas, escreveu o Sanmati-sutra. Este breve tratado em prácrito procura estabelecer que os vários pontos de vista (naya) são válidos quando abordados no espírito do syadvada, e não são válidos quando apresentados à maneira absolutista (ekanta) dos sistemas não jainistas. Jaini acrescenta que os mimamsakas, defensores hindus dos Vedas, se opuseram fortemente à afirmação jainista de que os Jinas humanos são oniscientes (p. 83).
Não é um ensinamento de que toda religião está certa
O anekantavada costuma ser resumido hoje assim: toda visão é em parte verdadeira, então toda religião está certa. Os mestres jainistas clássicos admitiam, sim, que as visões rivais têm parte da verdade, como visões parciais. Jaini escreve que essas visões se tornam falsas quando são sustentadas como toda a verdade. Paul Dundas, um estudioso do jainismo, escreve que o ensinamento nasceu em parte da afirmação de que os Tirthankaras eram plenamente oniscientes. Os lógicos jainistas o usaram para mostrar que os sistemas hindus e budistas eram unilaterais. O comentador Svetambara Mallisena chama de visão defeituosa uma visão que afirma só um aspecto. Dundas acrescenta que ler o ensinamento como tolerância de toda opinião é moderno. Escreve que o jainismo sempre sustentou que o seu próprio caminho é superior aos outros.
Jaini escreve que, ao condenar as outras escolas como unilaterais, o jainista não diz que as suas opiniões estão totalmente erradas. São válidas quando vistas como nayas, expressões parciais da verdade, e só se tornam falsas quando se sustenta que têm validade absoluta e exclusiva (p. 93). A sua nota cita em sânscrito o comentário do svetambara Mallisena ao verso 28 do Anyayogavyavacchedika de Hemacandra. As suas palavras dizem que “existe” (sat) é um naya, enquanto “só existe” (sad eva) é um durnaya, um naya defeituoso, que põe de lado as outras propriedades da coisa (p. 93, n. 8). O syadvada qualifica uma afirmação com syat, melhor traduzido por “em certo aspecto”, e eva, “de fato” (p. 94).
Dundas escreve que o ensino jainista da multiplicidade de pontos (anekantatva) nasceu de dois fatores: a afirmação de onisciência plena dos Tirthankaras, os mestres que transmitem uma compreensão correta da realidade aos não iluminados, e a visão de que a realidade envolve tanto permanência como mudança. Todo juízo feito por uma alma que não é onisciente é adequado para os fins do dia a dia, mas inevitavelmente falho. Cada naya, ou ponto de vista, é incompleto por si só. O syadvada, a doutrina do “pode ser”, não era uma forma de ceticismo para os filósofos jainistas. Nas mãos jainistas, o método se tornou uma arma de debate, usada para mostrar que os sistemas hindus e budistas eram unilaterais. No argumento jainista, esses sistemas contêm de fato versões parciais da verdade, mas não podem fazer plena justiça à natureza multifacetada do mundo. O mestre svetambara Haribhadra escreveu um dos seus tratados mais conhecidos, e nunca deixou de sustentar a supremacia do jainismo.
Dundas escreve que, nos tempos modernos, muitos jainistas passaram a ler a multiplicidade de pontos como uma extensão da não violência à tolerância das opiniões dos outros. Chama isto uma leitura errada bem-intencionada de uma doutrina que não se destinava a promover uma tolerância religiosa universal. Observa que as religiões indianas eram muito críticas dos sistemas dos seus rivais. O estudioso digambara Todarmal (século XVIII) sustentava que ninguém de outra tradição religiosa podia alcançar a atitude correta (samyaktva) necessária para a libertação. A posição constante do jainismo, escreve Dundas, é que ele é, no nível mais profundo, diferente dos outros caminhos e superior a eles.
Como o conhecimento do Jina chega às pessoas hoje
Jaini escreve que a autoridade do ensinamento jainista repousa no fato de ter sido pregado por um ser onisciente. Mas Mahavira, o último Jina desta era nesta parte do mundo, passou além do renascimento e já não ensina. Uma escritura Svetambara diz que as almas aperfeiçoadas residem no topo do mundo. Os jainistas sustentam que outros vinte Jinas ensinam agora, mas só em regiões distantes como Mahavideha. O mais conhecido deles é Simandhara. As escrituras Svetambaras descrevem o renascimento em Mahavideha e o alcance da onisciência ali. Mas os jainistas passaram a sustentar que, depois de Jambu, discípulo de Mahavira, ninguém nesta parte do mundo alcança a onisciência nesta era. Então os jainistas daqui só conhecem o ensinamento do Jina pelos livros transmitidos. As duas tradições dizem que os mais antigos desses livros, os catorze Purvas, se perderam. Os Digambaras sustentam que os Angas, os livros principais, também se perderam.
Jaini escreve que a autoridade dos ensinamentos jainistas repousa em última análise no fato de terem sido pregados por um ser onisciente. Os mestres jainistas afirmam que só os ensinamentos do Jina podem resistir ao exame da razão (p. 89).
“Ali, no topo do mundo, residem as bem-aventuradas almas aperfeiçoadas, livres de toda transmigração, e chegadas ao excelente estado de perfeição.”
Dundas escreve que, quando a tradição jainista passou a aceitar que a iluminação já não era possível na região de Bharata (a Índia) depois da morte de Jambu, discípulo de Mahavira, as escrituras svetambaras passaram a descrever o renascimento na distante região de Mahavideha e a iluminação alcançada ali. Uma escritura svetambara, a Exposição das Explicações, diz que o tempo é estável em Mahavideha, sem era corrupta do mundo, e que fazedores de vau (Tirthankaras) pregam ali. Os jainistas sustentam que, neste momento, vinte fazedores de vau, os “errantes” (viharamana), vivem e ensinam em regiões distantes do Mundo do Meio, a parte do universo onde vivem os humanos; quatro deles estão em Mahavideha. O mais popular é Simandhara. A devoção a ele é muito difundida entre os svetambaras, e o digambara Devasena, do século X, foi o primeiro escritor a contar que Kundakunda recebeu o seu conhecimento diretamente dele.
Dundas escreve que, por volta do início da era comum, os jainistas reconheciam que uma variedade de realizações espirituais avançadas, das quais a iluminação (a onisciência completa) era uma, já não eram possíveis nesta era depois da morte do discípulo Jambu. A prática religiosa passou então a visar não só queimar o carma, mas também, cada vez mais, ganhar mérito para um bom renascimento (capítulo 6, primeira página, p. 94).
“os svetambaras, assim como os digambaras, nos dizem que, além dos Angas, existiam outras obras, provavelmente mais antigas, chamadas Purvas, das quais havia originalmente catorze. O conhecimento desses Purvas foi se perdendo aos poucos, até que por fim se extinguiu de todo.”
“os digambaras também perderam os Purvas, e os Angas além disso”
A resposta do islã: do Onisciente, guardada por Ele
No islã, só Deus (﷾) conhece todas as coisas. “E Ele tem as chaves do Invisível; ninguém sabe delas senão Ele” (6:59). Nenhuma criatura conhece todas as coisas, nem mesmo um profeta. O Profeta (ﷺ) recebeu a ordem de dizer que não conhecia o Invisível (7:188). Deus (﷾) dá a conhecer o que quer do Seu Invisível “a um Mensageiro, de quem Se agrade” (72:26-27). Então o Profeta (ﷺ) só sabia do Invisível o que Deus (﷾) lhe ensinou, e o transmitiu. Às pessoas não foi concedido da ciência “senão pouco” (17:85). Nada abarcam da Sua ciência “senão aquilo que Ele quer” (2:255). Deus (﷾) fez descer o Alcorão e prometeu guardá-lo (15:9). O Profeta (ﷺ) morreu, mas Aquele que guarda o Livro vive para sempre. Quando o Profeta (ﷺ) morreu, Abu Bakr disse ao povo que Allah (﷾) está vivo e nunca morre. Um jainista que busca toda a verdade é convidado a ler o Alcorão. É convidado também a conhecer o último Profeta (ﷺ), a quem ele foi revelado.
“E Ele tem as chaves do Invisível; ninguém sabe delas senão Ele. E Ele sabe o que há na terra e no mar. E nenhuma folha tomba sem que Ele saiba disso, e não há grão algum nas trevas da terra nem algo, úmido nem seco, que não estejam no evidente livro.”
“Dize: “Não possuo para mim mesmo, nem beneficio nem prejuízo, exceto o que Allah quer. E se soubesse do Invisível, multiplicar-me-ia os bens, e não me tocaria o mal. Não sou senão admoestador e alvissareiro para um povo que crê””
“Ele é O Sabedor do invisível e não faz aparecer Seu invisível a ninguém, Exceto a um Mensageiro, de quem Se agrade; então, por certo, Ele introduzirá guardiães adiante dele e detrás dele,”
“E perguntam-te eles pela alma. Dize: “A alma é da Ordem de meu Senhor. E não vos foi concedido da ciência senão pouco””
“Allah, não existe deus senão Ele, O Vivente, Aquele que subsiste por Si mesmo. Não O tomam nem sonolência nem sono. DEle é o que há nos céus e o que há na terra. Quem intercederá junto dEle senão com Sua permissão? Ele sabe seu passado e seu futuro, e nada abarcam de Sua ciência senão aquilo que Ele quer. Seu Trono abrange os céus e a terra e não O afadiga custodiá-los. E Ele é O Altíssimo, O Magnífico.”
“Por certo, Nós fizemos descer o Alcorão e por certo, dele somos Custódios.”
Aisha relata que, quando o Profeta (ﷺ) morreu, Umar insistia que ele não estava morto. Abu Bakr veio, beijou o rosto do Profeta e depois disse ao povo que quem adorava Muhammad soubesse que Muhammad tinha morrido, e quem adorava Allah soubesse que Allah está vivo e nunca morre. Recitou 39:30 e 3:144, que Muhammad não é mais que um mensageiro, e o povo chorou.
| Pergunta | O ensino jainista | O islã |
|---|---|---|
| Quem conhece todas as coisas | Mahavira, um onisciente. | Só Deus (﷾). Nem mesmo um profeta. |
| Alguém hoje? | Ninguém nesta parte do mundo, nesta era. | As pessoas recebem só um pouco de conhecimento. |
| Como chega até nós | Pelos livros transmitidos. | Revelada a um mensageiro que Deus (﷾) escolheu. |
| Os livros | Os catorze Purvas se perderam. Os digambaras sustentam que os Angas também se perderam. | Deus (﷾) prometeu guardar o Alcorão. |
As réplicas, respondidas
Alcorão 7:188 — Surata Al-Araf (Os Cimos), versículo 188
“Dize: “Não possuo para mim mesmo, nem beneficio nem prejuízo, exceto o que Allah quer. E se soubesse do Invisível, multiplicar-me-ia os bens, e não me tocaria o mal. Não sou senão admoestador e alvissareiro para um povo que crê””
Citado para
O ensinamento jainista se apoia num mestre que conhecia todas as coisas. O Profeta (ﷺ) do islã disse que não conhecia o Invisível. Então o ensinamento do Jina está em terreno mais firme.
A resposta
O islã ensina que nenhuma criatura, nem mesmo um profeta, conhece todas as coisas. O Alcorão diz que ninguém nos céus nem na terra, exceto Deus (﷾), conhece o Invisível (27:65). Deus (﷾) dá a conhecer o que quer do Seu Invisível a um Mensageiro de quem Se agrada (72:26-27). Então o Profeta (ﷺ) só sabia do Invisível o que Deus (﷾) lhe ensinou. O Alcorão diz que ele não falava por paixão: “Sua fala não é senão revelação a ele revelada” (53:3-4). A autoridade do Alcorão repousa no próprio Onisciente, e não no conhecimento de nenhum homem.
Onde fica — No islã, a fonte da mensagem é Deus, que conhece todas as coisas. O Profeta (ﷺ) a transmitiu tal como lhe foi revelada.
Alcorão 2:106 — Surata Al-Baqarah (A Vaca), versículo 106
“Qualquer versículo que anulemos ou façamos esquecer, faremos chegar um melhor ou igual a ele. Não sabes que Allah, sobre todas as cousas, é Onipotente?”
Citado para
Os críticos dizem que o Alcorão também perdeu versículos, pela ab-rogação, então os muçulmanos enfrentam o mesmo problema que os jainistas.
A resposta
Em 2:106, Deus (﷾) diz que qualquer versículo que Ele anule ou faça esquecer, Ele o substitui por um melhor ou igual. Em 87:6-7, diz ao Profeta (ﷺ) que ele não esquecerá, exceto o que Deus (﷾) quiser. Então toda retirada é ato do próprio Deus (﷾), dito no próprio Livro. As tradições jainistas relatam uma perda entre os seguidores, depois que Mahavira tinha morrido. Zayd escrevia a revelação para o Profeta (ﷺ), e Gabriel revisava o Alcorão com ele todo ano.
Onde fica — O que Deus (﷾) retirou, retirou em vida do Profeta (ﷺ), pela Sua própria palavra. Isso não é ensinamento perdido entre seguidores depois que o mestre morreu.
Jaini, The Jaina Path of Purification (O caminho jainista da purificação, 1979), pp. 93-94
Jaini escreve que, ao condenar as outras escolas como unilaterais, o jainista não diz que as suas opiniões estão totalmente erradas. São válidas quando vistas como nayas, expressões parciais da verdade, e só se tornam falsas quando se sustenta que têm validade absoluta e exclusiva (p. 93). A sua nota cita em sânscrito o comentário do svetambara Mallisena ao verso 28 do Anyayogavyavacchedika de Hemacandra. As suas palavras dizem que “existe” (sat) é um naya, enquanto “só existe” (sad eva) é um durnaya, um naya defeituoso, que põe de lado as outras propriedades da coisa (p. 93, n. 8). O syadvada qualifica uma afirmação com syat, melhor traduzido por “em certo aspecto”, e eva, “de fato” (p. 94).
Citado para
A afirmação do islã de que só ele é verdadeiro é a própria unilateralidade (ekanta) que a lógica jainista chama de falsa.
A resposta
Na lógica jainista, ekanta é uma visão parcial sustentada como se fosse o todo. Os mestres jainistas acharam essa falha nos sistemas rivais, e não no próprio ensinamento do Jina. Sustentavam que só o ensinamento do Jina resiste ao exame da razão. Então a própria lógica jainista admite que um ensinamento seja o verdadeiro, se vier de quem conhece todas as coisas. A afirmação do islã é desse tipo: o Alcorão vem de Deus (﷾), que conhece todas as coisas (6:59). E o Alcorão convida à prova: um livro vindo de outro que Deus (﷾) conteria muitas discrepâncias (4:82).
Onde fica — Afirmar a verdade não é ekanta quando a afirmação é que a palavra vem d'Aquele que conhece todas as coisas. A questão é se o Alcorão é essa palavra, e o Alcorão convida à prova.
Kalpa Sutra §121 — Vidas dos Jinas, §121
“ele, o Arhat, para quem não há segredo, conhecia e via todas as condições de todos os seres vivos do mundo, o que pensavam, falavam ou faziam em qualquer momento.”
Citado para
O conhecimento do Jina chega até nós por meio dos seus discípulos e dos mestres que vieram depois deles.
A resposta
Por meio de quais livros? As duas tradições dizem que os catorze Purvas se perderam. Os Digambaras sustentam que os Angas também se perderam. Não admitem que os Angas Svetambaras sobrevivam em forma autêntica. As duas aceitam o Tattvartha Sutra de Umasvati, mas ele é o resumo de um mestre. Um resumo comum não é um registro comum das palavras do Jina. Um conhecimento que já foi inteiro só é tão seguro quanto o registro que o carrega.
Onde fica — O conhecimento do Jina chega aos jainistas de hoje por cânones que estão em parte perdidos e que as duas tradições não têm em comum.
Dundas, The Jains (Os jainistas, 2002), capítulo 6
Dundas escreve que, por volta do início da era comum, os jainistas reconheciam que uma variedade de realizações espirituais avançadas, das quais a iluminação (a onisciência completa) era uma, já não eram possíveis nesta era depois da morte do discípulo Jambu. A prática religiosa passou então a visar não só queimar o carma, mas também, cada vez mais, ganhar mérito para um bom renascimento (capítulo 6, primeira página, p. 94).
Citado para
Um jainista não precisa de mensageiro. Toda alma pode alcançar a onisciência pelo próprio esforço, e Jinas vivos como Simandhara ensinam até agora em Mahavideha.
A resposta
Os jainistas passaram a sustentar que, depois de Jambu, discípulo de Mahavira, ninguém nesta parte do mundo alcança a onisciência nesta era. Na crença jainista, os Jinas vivos só ensinam em regiões distantes, e um jainista pode esperar renascer ali. Então todo jainista que vive aqui depende do ensinamento transmitido, e as duas tradições dizem que esses livros estão em parte perdidos. O Alcorão está nas mãos de qualquer um hoje, e Deus (﷾) o guarda (15:9).
Onde fica — Nenhum jainista daqui ouve um Jina vivo nem vê toda a verdade sem ajuda. O Alcorão pode ser lido hoje, e a sua fonte é Aquele que conhece todas as coisas.
Jaini, The Jaina Path of Purification (O caminho jainista da purificação, 1979), pp. 93-94
Jaini escreve que, ao condenar as outras escolas como unilaterais, o jainista não diz que as suas opiniões estão totalmente erradas. São válidas quando vistas como nayas, expressões parciais da verdade, e só se tornam falsas quando se sustenta que têm validade absoluta e exclusiva (p. 93). A sua nota cita em sânscrito o comentário do svetambara Mallisena ao verso 28 do Anyayogavyavacchedika de Hemacandra. As suas palavras dizem que “existe” (sat) é um naya, enquanto “só existe” (sad eva) é um durnaya, um naya defeituoso, que põe de lado as outras propriedades da coisa (p. 93, n. 8). O syadvada qualifica uma afirmação com syat, melhor traduzido por “em certo aspecto”, e eva, “de fato” (p. 94).
Citado para
Toda visão é em parte verdadeira, então toda religião tem parte da verdade. Ninguém precisa escolher entre elas.
A resposta
Os mestres jainistas dizem, sim, que as visões rivais têm parte da verdade, como visões parciais. Mas chamam cada uma de falsa quando é sustentada como toda a verdade. Usaram o ensinamento para mostrar que os sistemas rivais eram unilaterais, e sustentavam que o seu próprio caminho era superior. O lema também se derrota a si mesmo: se toda visão é só em parte verdadeira, essa também é.
Onde fica — A lógica jainista julga toda visão diante de toda a verdade. Não torna toda religião certa.
Dundas, The Jains (Os jainistas, 2002), capítulo 8, A doutrina da multiplicidade de pontos
Dundas escreve que, nos tempos modernos, muitos jainistas passaram a ler a multiplicidade de pontos como uma extensão da não violência à tolerância das opiniões dos outros. Chama isto uma leitura errada bem-intencionada de uma doutrina que não se destinava a promover uma tolerância religiosa universal. Observa que as religiões indianas eram muito críticas dos sistemas dos seus rivais. O estudioso digambara Todarmal (século XVIII) sustentava que ninguém de outra tradição religiosa podia alcançar a atitude correta (samyaktva) necessária para a libertação. A posição constante do jainismo, escreve Dundas, é que ele é, no nível mais profundo, diferente dos outros caminhos e superior a eles.
Citado para
O anekantavada ensina a humildade e a tolerância. O islã afirma ter a única verdade, então o islã é intolerante.
A resposta
Afirmar a verdade não é o mesmo que impô-la. O Alcorão diz: “Não há compulsão na religião” (2:256). Dundas nota que os mestres jainistas clássicos sustentavam que o seu próprio caminho era superior aos outros. Nota também que ler o anekantavada como tolerância de toda opinião é moderno.
Onde fica — Todo ensinamento sério afirma ser verdadeiro. O islã faz a sua afirmação abertamente. Os muçulmanos podem persuadir, mas não podem forçar ninguém a se tornar muçulmano.
Alcorão 17:85 — Surata Al-Isra (A Viagem Noturna), versículo 85
“E perguntam-te eles pela alma. Dize: “A alma é da Ordem de meu Senhor. E não vos foi concedido da ciência senão pouco””
Citado para
O próprio Alcorão diz que as pessoas sabem só pouco. Então a visão de um muçulmano também é parcial, e não pode afirmar toda a verdade.
A resposta
O Alcorão o diz, sim. Nenhum muçulmano afirma conhecer todas as coisas. É por isso que um muçulmano não se apoia numa visão parcial própria. Apoia-se no que Aquele que conhece todas as coisas fez descer (6:59; 72:26-27). Deus (﷾) diz que completou a religião (5:3), e guarda o Livro (15:9).
Onde fica — Nenhum muçulmano conhece todas as coisas. Um muçulmano sustenta o que o Onisciente fez descer, e Deus (﷾) diz que é uma religião completada.
Perspectivas
O Jina conhece toda a verdade
Mahavira se tornou um Kevalin, onisciente, e viu todas as coisas em todos os seus estados. O seu ensinamento é o guia seguro para todos os que ainda não são oniscientes.
Ensinamento Svetambara e Digambara por igual
Mahavira se tornou um Kevalin, e conhecia e via todas as condições de todos os seres vivos do mundo.
Réplica
O Alcorão diz que ninguém nos céus nem na terra, exceto Deus (﷾), conhece o Invisível. Até o último Profeta (ﷺ) recebeu a ordem de dizer que não conhecia o Invisível. No islã, o conhecimento de todas as coisas pertence só a Deus (﷾). Um mensageiro só sabe do Invisível o que Deus (﷾) lhe dá a conhecer.
O ensinamento de um Jina onisciente é o guia seguro, e só ele resiste ao exame da razão.
Réplica
Então tudo depende do registro das suas palavras. As duas tradições dizem que os Purvas se perderam, e os Digambaras sustentam que os Angas também se perderam.
Anekantavada: os muitos aspectos da realidade
Toda coisa tem inumeráveis aspectos, então quem não é onisciente só vê uma parte dela. Uma visão parcial (naya) é válida no seu próprio aspecto, e se torna falsa quando é sustentada como toda a verdade.
Os lógicos jainistas: Siddhasena Divakara (reivindicado pelas duas tradições), Hemacandra e Mallisena (Svetambaras)
Toda coisa tem inumeráveis qualidades e estados, então ninguém que não seja onisciente vê uma coisa inteira.
Réplica
O Alcorão diz que às pessoas foi concedido só pouco conhecimento. Então ninguém chega a toda a verdade por uma visão própria. As pessoas conhecem a verdade de que precisam só na medida em que Deus (﷾) a dá a conhecer, e Ele a deu a conhecer no Seu Livro.
Uma visão parcial (naya) é válida no seu próprio aspecto. Só se torna falsa quando é sustentada como toda a verdade (ekanta).
Réplica
Então a lógica jainista não torna toda visão verdadeira tal como os seus defensores a sustentam. Julga cada visão diante de toda a verdade, que nenhuma visão parcial pode fornecer.
Os muitos aspectos como tolerância
O anekantavada estende a não violência à mente. Ensina a humildade e o respeito pelas visões dos outros, então nenhuma religião deveria afirmar ter toda a verdade.
Uma leitura moderna sustentada por muitos jainistas
O anekantavada estende a não violência às opiniões dos outros, então nenhuma religião deveria afirmar ter toda a verdade.
Réplica
Dundas chama essa leitura de moderna; os mestres jainistas clássicos sustentavam que o seu próprio caminho era superior. O islã afirma a verdade abertamente. O Alcorão diz que não há compulsão na religião, então os muçulmanos podem persuadir, mas não podem forçar ninguém a se tornar muçulmano.
O que o registro mostra
O ensinamento jainista sustenta que toda a verdade só é vista por quem conhece todas as coisas. Os lógicos jainistas julgam as visões parciais diante dela. Os jainistas sustentam que ninguém nesta parte do mundo alcança a onisciência nesta era. Os livros que carregam o ensinamento do Jina estão em parte perdidos e são disputados.
As escrituras Svetambaras dizem que Mahavira, uma vez Kevalin, conhecia e via todas as condições de todos os seres vivos do mundo.
Os lógicos jainistas sustentam que uma visão parcial se torna falsa quando é sustentada como toda a verdade.
Ler o anekantavada como tolerância de toda opinião é uma leitura moderna.
Os jainistas passaram a sustentar uma visão sobre Jambu, discípulo de Mahavira. Depois dele, ninguém nesta parte do mundo alcança a onisciência nesta era.
Os jainistas sustentam que vinte Jinas ensinam agora em regiões distantes do mundo, como Mahavideha. O mais conhecido deles é Simandhara.
As duas tradições dizem que os catorze Purvas se perderam, e os Digambaras sustentam que os Angas também se perderam.
A perspectiva islâmica
Só Deus (﷾) conhece todas as coisas, e as pessoas só conhecem o que Ele quer. Ele dá a conhecer o que quer do Seu Invisível a um Mensageiro de quem Se agrada, e guarda o Livro que enviou. Um leitor que busca toda a verdade é convidado a examinar o Alcorão e a vida do último Profeta (ﷺ).
Só Deus (﷾) conhece o Invisível. O Profeta (ﷺ) recebeu a ordem de dizer que não o conhecia.
As pessoas não abarcam nada da ciência de Deus (﷾) senão o que Ele quer, e só lhes foi concedido pouco conhecimento.
Deus (﷾) dá a conhecer o que quer do Seu Invisível a um Mensageiro de quem Se agrada.
O Profeta (ﷺ) não falava por paixão própria; o que transmitia era revelação a ele revelada.
Deus (﷾) fez descer o Alcorão e prometeu guardá-lo.
O Alcorão convida os seus leitores a examiná-lo. Diz que um livro vindo de outro que Deus (﷾) conteria muitas discrepâncias.
Não há compulsão na religião.