Resposta curta
Num discurso, o Buda recusa que os seus monges mostrem prodígios às pessoas comuns, e diz que tais demonstrações o enojam. Um leigo tinha pedido um, para que a cidade se tornasse ainda mais devotada ao Buda. Mas o livro de regras dos monges faz o próprio Buda realizar prodígio após prodígio para um asceta adorador do fogo chamado Kassapa. Um deles foi ler a sua mente. Depois de cada um, Kassapa reconhecia o poder, e ainda se achava mais santo. Só pediu para entrar quando o Buda lhe disse claramente que ele não era santo. No Alcorão, quando as pessoas exigem sinais, o Profeta (ﷺ) responde que os sinais estão junto de Deus (﷾), e que ele é um admoestador.
Explicação completa
Enojado com demonstrações de poder
Um dos Discursos Longos é o discurso a Kevaddha. Esses discursos estão no cânone páli, as escrituras do budismo Theravada. Nele, um chefe de família pede ao Buda que mande um monge fazer um prodígio, para que a cidade de Nalanda se torne ainda mais devotada. O Buda diz que não ensina os seus monges a fazer isso para as pessoas comuns. Nomeia três tipos de demonstração: o poder psíquico, a revelação dos pensamentos dos outros e a instrução. Alguém sem fé, diz ele, diria que as duas primeiras foram feitas por um feitiço. Vendo esse inconveniente, ele fica horrorizado, repelido e enojado com ambas. Só aprova a instrução, ensinar as pessoas a pensar e a viver.
“Então o chefe de família Kevaḍḍha foi ao Buda, inclinou-se, sentou-se de lado e lhe disse: “Senhor, esta Nāḷandā é próspera e rica, populosa e cheia de gente. Por favor, ordena a um mendicante que faça uma demonstração sobre-humana de poder psíquico. Então Nāḷandā se tornará ainda mais devotada ao Buda!” Quando ele disse isto, o Buda disse: “Kevaḍḍha, não ensino o Dhamma aos mendicantes assim: ‘Vamos, mendicantes, fazei uma demonstração sobre-humana de poder psíquico para os leigos vestidos de branco.’””
““Mas o que não tem fé nem confiança lhes diria: ‘Há um feitiço chamado Gandhārī. Usando-o, um mendicante pode fazer tais feitos sobre-humanos.’ Que pensas, Kevaḍḍha? Não falaria assim alguém sem fé?” “Falaria, senhor.””
“Vendo este inconveniente no poder psíquico, fico horrorizado, repelido e enojado com as demonstrações de poder psíquico.”
“E qual é a demonstração de revelar? É quando um mendicante revela a mente, a mentalidade, os pensamentos e as reflexões de outros seres e indivíduos: “Isto é o que estás pensando, tal é o teu pensamento, e assim é o teu estado de espírito.””
“Vendo este inconveniente no revelar, fico horrorizado, repelido e enojado com as demonstrações de revelar.”
“E qual é a demonstração de instrução? É quando um mendicante instrui os outros assim: “Pensa assim, não assado. Concentra a mente assim, não assado. Abandona isto, e vive tendo alcançado aquilo.” Isto se chama a demonstração de instrução.”
Fogo contra fogo
O Mahavagga, parte do Vinaya, o livro de regras dos monges, conta como o Buda chegou a Uruvela. Ali vivia Kassapa, o líder de quinhentos ascetas de cabelo emaranhado que cuidavam de um fogo sagrado. O Buda passou a noite na sua casa do fogo com um feroz rei serpente. Venceu o fogo dele com o seu próprio, e de manhã o mostrou domado na sua tigela de esmolas. Kassapa pensou que o Buda tinha grandes poderes mágicos, mas: “Ele não é, porém, santo (araha) como eu.”
“Passada aquela noite, o Abençoado, deixando intactos a pele, o couro, a carne, os ligamentos, os ossos e a medula daquele Naga, e vencendo o fogo do Naga com o seu fogo, lançou-o na sua tigela de esmolas e mostrou-o ao Gatila Uruvela Kassapa (dizendo): “Aqui vês o Naga, Kassapa; o seu fogo foi vencido pelo meu fogo.” Então o Gatila Uruvela Kassapa pensou: “Verdadeiramente o grande Samana possui altos poderes mágicos e grandes faculdades, já que é capaz de vencer com o seu fogo o fogo daquele selvagem rei Naga, que possui poder mágico, aquela serpente terrivelmente venenosa. Ele não é, porém, santo (araha) como eu.””
Lendo a mente de Kassapa
Mais tarde, aproximou-se um grande sacrifício que Kassapa costumava celebrar. Ele pensou que, se o Buda fizesse um prodígio diante daquela grande multidão, o ganho e a honra do Buda aumentariam, e os seus diminuiriam. Então desejou que o Buda ficasse longe. O Buda conheceu esse pensamento pelo poder da sua mente. Ficou longe, e o disse a Kassapa no dia seguinte. De novo Kassapa reconheceu o poder: “Ele não é, porém, santo como eu.” Essa é a demonstração de revelar pensamentos que, no discurso a Kevaddha, o Buda diz que o enoja.
“Naquele tempo, aproximava-se um grande sacrifício que o Gatila Uruvela Kassapa costumava celebrar, e todo o povo de Anga e Magadha queria ir àquele sacrifício levando comida abundante, dura e mole. Ora, o Gatila Uruvela Kassapa pensou: “Em breve se aproxima o meu grande sacrifício, e todo o povo de Anga e Magadha virá e trará consigo comida abundante, dura e mole. Se o grande Samana fizer um prodígio diante daquela grande assembleia, o ganho e a honra aumentarão para o grande Samana, e o meu ganho e a minha honra diminuirão. Pois bem, o grande Samana não aparecerá aqui amanhã.” Então o Abençoado, entendendo pelo poder da sua mente esta reflexão que tinha surgido na mente do Gatila Uruvela Kassapa, foi a Uttara Kuru; tendo pedido esmolas ali, levou a comida (que tinha recebido) ao lago Anotatta; ali fez a sua refeição e descansou durante o calor do dia no mesmo lugar.”
““Entendi, Kassapa, pelo poder da minha mente, esta reflexão que tinha surgido na tua mente, e fui a Uttara Kuru; tendo pedido esmolas ali, levei a comida ao lago Anotatta; ali fiz a minha refeição e descansei durante o calor do dia no mesmo lugar.” Então o Gatila Uruvela Kassapa pensou: “Verdadeiramente o grande Samana possui altos poderes mágicos e grandes faculdades, já que é capaz de entender pelo poder da sua mente os pensamentos de outras pessoas. Ele não é, porém, santo como eu.””
“E qual é a demonstração de revelar? É quando um mendicante revela a mente, a mentalidade, os pensamentos e as reflexões de outros seres e indivíduos: “Isto é o que estás pensando, tal é o teu pensamento, e assim é o teu estado de espírito.””
“Vendo este inconveniente no revelar, fico horrorizado, repelido e enojado com as demonstrações de revelar.”
Prodígio após prodígio
A história principal continua. Quando os ascetas não conseguiam rachar a lenha, o Buda perguntou a Kassapa se devia ser rachada, e num instante as quinhentas achas foram rachadas. Kassapa pensou o mesmo outra vez. Seguiram-se fogos que não acendiam ou não se apagavam. Um parágrafo final soma os prodígios em três mil e quinhentos. Os seus tradutores do século XIX notam que esse parágrafo é evidentemente uma observação acrescentada ao texto por um leitor ou comentador.
“Naquele tempo, um dia, os Gatilas, que queriam cuidar dos seus fogos sagrados, não conseguiam rachar a lenha. Ora, estes Gatilas pensaram: “Sem dúvida é o poder mágico e a alta faculdade do grande Samana que não conseguimos rachar a lenha.” Então o Abençoado disse ao Gatila Uruvela Kassapa: “Hei de rachar a lenha, Kassapa?” “Que seja rachada, grande Samana.” Então, num instante, as quinhentas achas de lenha foram rachadas. E o Gatila Uruvela Kassapa pensou: “Verdadeiramente o grande Samana possui altos poderes mágicos e grandes faculdades, já que até a lenha se racha sozinha (à sua ordem). Ele não é, porém, santo como eu.””
“À ordem do Abençoado, as quinhentas achas de lenha não podiam ser rachadas e foram rachadas, os fogos não podiam ser acesos e foram acesos, não podiam ser apagados e foram apagados; além disso, ele criou quinhentos recipientes com fogo. Assim o número destes milagres chega a três mil e quinhentos.”
O que finalmente o conquistou
No fim, o Buda pensou que aquele homem tolo continuaria pensando por muito tempo: “Ele não é, porém, santo como eu.” Então disse claramente a Kassapa que ele não era santo, e que não estava no caminho. Só então Kassapa pediu para se tornar monge.
“Então o Abençoado pensou: “Este homem tolo ainda pensará assim por muito tempo: ‘Verdadeiramente o grande Samana possui altos poderes mágicos e grandes faculdades; ele não é, porém, santo como eu.’” E o Abençoado disse ao Gatila Uruvela Kassapa: “Tu não és santo (araha), Kassapa, nem entraste no caminho do estado de Arahat, nem andas numa prática que te leve ao estado de Arahat, ou a entrar no caminho do estado de Arahat.””
O rei-serpente domado
Kassapa: “Ele, porém, não é santo (araha) como eu.”
A sua mente lida
De novo ele reconhece o poder, e ainda se acha mais santo.
Dito com clareza
O Buda lhe diz que ele não é santo nem está no caminho; só então ele pede para se tornar monge.
Dois retratos num só cânone
A razão do Buda para recusar os prodígios era que eles não provam o mestre: quem olha pode explicá-los de outro modo. A história de Kassapa mostra a mesma fraqueza de outra forma. Depois de cada prodígio, ele reconhecia o poder e ainda se achava mais santo. Mas o livro de regras faz o Buda realizar prodígios uma e outra vez, incluindo a leitura da mente que ele chamou de repugnante. Os dois livros estão no cânone páli, e dão dele dois retratos que não se ajustam.
““Mas o que não tem fé nem confiança lhes diria: ‘Há um feitiço chamado Gandhārī. Usando-o, um mendicante pode fazer tais feitos sobre-humanos.’ Que pensas, Kevaḍḍha? Não falaria assim alguém sem fé?” “Falaria, senhor.””
“Vendo este inconveniente no revelar, fico horrorizado, repelido e enojado com as demonstrações de revelar.”
““Entendi, Kassapa, pelo poder da minha mente, esta reflexão que tinha surgido na tua mente, e fui a Uttara Kuru; tendo pedido esmolas ali, levei a comida ao lago Anotatta; ali fiz a minha refeição e descansei durante o calor do dia no mesmo lugar.” Então o Gatila Uruvela Kassapa pensou: “Verdadeiramente o grande Samana possui altos poderes mágicos e grandes faculdades, já que é capaz de entender pelo poder da sua mente os pensamentos de outras pessoas. Ele não é, porém, santo como eu.””
“Então o Abençoado pensou: “Este homem tolo ainda pensará assim por muito tempo: ‘Verdadeiramente o grande Samana possui altos poderes mágicos e grandes faculdades; ele não é, porém, santo como eu.’” E o Abençoado disse ao Gatila Uruvela Kassapa: “Tu não és santo (araha), Kassapa, nem entraste no caminho do estado de Arahat, nem andas numa prática que te leve ao estado de Arahat, ou a entrar no caminho do estado de Arahat.””
| Texto | O que diz |
|---|---|
| O Discurso a Kevaddha | Ele não quer que os seus monges mostrem prodígios às pessoas comuns, e sente aversão às demonstrações de poder e de leitura de pensamentos; aprova só a instrução. |
| O livro de regras dos monges (Mahavagga) | Ele doma um rei-serpente com fogo, lê a mente de Kassapa e racha quinhentos pedaços de lenha num instante. |
Os sinais pertencem a Deus (﷾)
Os incrédulos perguntaram por que nenhum sinal descia sobre o Profeta (ﷺ). O Alcorão lhe disse que dissesse que os sinais estão junto de Deus (﷾), e que ele é um evidente admoestador. Perguntou se não lhes bastava o Livro que lhes era recitado. Quando a lua se fendeu como sinal, diz o Alcorão, eles deram de ombros e o chamaram de magia. No Alcorão, todo sinal é obra de Deus (﷾), e ele nunca condena um sinal. Diz que o Livro é sinal bastante.
“E os que renegam a Fé dizem: “Que se faça descer sobre ele um sinal de seu Senhor!” Tu és, apenas, admoestador e, para cada povo, há um guia.”
“Dize, Muhammad: “Os sinais estão, apenas, junto de Allah, e sou, apenas evidente admoestador.” E não lhes basta que façamos descer, sobre ti, o Livro, que se recita, para eles? Por certo, há nisso misericórdia e lembrança para um povo que crê.”
“A Hora aproxima-se, e a lua fendeu-se. E, contudo, se eles vêem um sinal, dão de ombros e dizem: “É magia constante.””
As respostas habituais
Sahih al-Bukhari 3637 — Kitab al-Manaqib (Virtudes e méritos), hadith 3637
Anas ibn Malik relata que o povo de Meca pediu ao Mensageiro de Allah que lhe mostrasse um sinal, e ele lhes mostrou a lua dividida.
Citado para
Os hadiths dizem que o povo de Meca pediu um sinal ao Profeta (ﷺ), e ele lhes mostrou a lua dividida.
A resposta
O Alcorão chama essa lua fendida de sinal, e diz que os que a viram a chamaram de magia e deram de ombros. O Profeta (ﷺ) nunca chamou os sinais de repugnantes, e o Alcorão diz que os sinais estão junto de Deus (﷾). Então o que ele disse sobre os sinais e o que os relatos contam concordam. As próprias palavras do Buda condenam os mesmos prodígios que o seu livro de regras o faz realizar.
Onde fica — O Alcorão e o Profeta (ﷺ) concordam sobre os sinais. O cânone páli faz o Buda condenar os mesmos prodígios que o faz realizar.
Perspectivas
Budista Theravada
O Buda recusou que os monges fizessem prodígios para os leigos. Uruvela foi diferente: ele domou ascetas orgulhosos, e o fez ele mesmo.
No discurso a Kevaddha, o Buda recusa que os monges façam prodígios para os leigos. Kassapa era um asceta, e não um leigo, e foi o próprio Buda que agiu.
Réplica
A razão que ele deu vale para qualquer público: um prodígio não prova o mestre, porque quem olha pode explicá-lo de outro modo. Kassapa fez exatamente isso. Reconhecia o poder a cada vez e ainda se achava mais santo.
Os prodígios só prepararam Kassapa. No fim, foram as palavras claras do Buda que o conquistaram, assim como o discurso a Kevaddha diz que só a instrução funciona de fato.
Réplica
Mas o livro de regras faz o Buda realizar prodígio após prodígio, incluindo ler a mente de Kassapa. É justamente a demonstração de revelar pensamentos que ele chamou de repugnante. E, pelo seu próprio pensamento, os prodígios não tinham funcionado: aquele homem tolo continuaria se achando mais santo.
A proibição do discurso a Kevaddha é para os monges. Um Buda pode fazer prodígios.
Réplica
Nesse discurso, o nojo é dele mesmo: “fico horrorizado, repelido e enojado com as demonstrações de poder psíquico”, e também com as demonstrações de revelar. O livro de regras o faz fazer as duas coisas.
O que os textos dizem
Um discurso em páli mostra o Buda enojado com demonstrações de poder psíquico e de leitura da mente. O livro de regras em páli o faz usar as duas para conquistar Kassapa.
No discurso a Kevaddha, o Buda fala das demonstrações de poder psíquico e de revelar pensamentos. Diz que fica horrorizado, repelido e enojado com elas.
O Mahavagga, parte do livro de regras dos monges, o faz domar um rei serpente com fogo e ler a mente de Kassapa. E Kassapa ainda se acha mais santo.
Um parágrafo soma os prodígios em três mil e quinhentos. Os seus tradutores dizem que é claramente uma nota posterior de um leitor ou comentador.
A perspectiva islâmica
Os sinais estão junto de Deus (﷾). O Profeta (ﷺ) é um admoestador, e o Livro é sinal bastante.
O Alcorão diz ao Profeta (ﷺ) que diga que os sinais estão junto de Deus (﷾). E pergunta se o Livro não basta.
O Alcorão diz que, quando as pessoas viram a lua se fender como sinal, deram de ombros e o chamaram de magia.