Resposta curta
No islã, o seu esforço importa, e cada ato é pesado. Mas ninguém é salvo só pelas obras. É a misericórdia de Deus (﷾) que salva, e a fé com as boas obras é o modo como uma pessoa a busca. O ensinamento jainista diz que cada alma se liberta pelo próprio esforço, sem nenhum Deus para perdoá-la. O islã ordena o esforço e recompensa cada boa obra, até o peso de um átomo. Mas o Profeta (ﷺ) disse que as obras de ninguém o salvarão, nem as dele mesmo, a não ser que Deus (﷾) o cubra com a Sua misericórdia. No mesmo hadith, disse aos seus seguidores que fizessem boas obras como se deve, com sinceridade e moderação. Então as obras não são inúteis, mas não são um preço que compra o Paraíso. Deus (﷾) perdoa, multiplica cada boa obra e aceita todo aquele que se volta para Ele enquanto dura a vida.
Explicação completa
O islã pede esforço, e conta cada ato
O islã não pede a ninguém que fique sentado esperando. O Alcorão diz que quem fez o peso de um átomo de bem o verá, e também o peso de um átomo de mal (99:7-8). Deus (﷾) não impõe a alma alguma senão o que é de sua capacidade, e cada alma recebe o bem que logrou (2:286). Os anjos saúdam os justos com “Entrai no Paraíso, pelo que fazíeis” (16:32). Então o esforço é ordenado, e nada dele se perde.
“Então quem houver feito um peso de àtomo de bem o verá, E quem houver feito um peso de átomo de mal o verá.”
“Allah não impõe a alma alguma senão o que é de sua capacidade. A ela, o que logrou de bom e, contra ela, o que cometeu de mau E dizem: “Senhor nosso! Não nos culpes, se esquecemos ou erramos. Senhor nosso! E não nos carregues de pesados fardos como deles carregaste aos que foram antes de nós. Senhor nosso! E não nos carregues daquilo para o que não temos força. E indulta-nos e perdoa-nos e tem misericórdia de nós. Tu és nosso Protetor; então, socorre-nos contra o povo renegador da Fé.””
“Aqueles cujas almas os anjos levam, enquanto benignos, dizendo: “Que a paz seja sobre vós! Entrai no Paraíso, pelo que fazíeis””
O que o ensinamento jainista diz
O ensinamento jainista sustenta que cada alma se liberta pelo próprio esforço. Padmanabh Jaini, um dos principais estudiosos do jainismo, escreve que um jainista não pode se apoiar na graça divina. Tem de contar sobretudo com o próprio esforço, para esta vida e para a sua salvação. O Acaranga Sutra dos Svetambaras (o ramo do jainismo vestido de branco) o diz assim, na versão inglesa de Hermann Jacobi de 1884: “Homem! Tu és o teu próprio amigo; por que desejas um amigo além de ti mesmo?” O Uttaradhyayana Sutra Svetambara diz que quem vence a si mesmo por si mesmo obterá a felicidade. A austeridade (tapas, a renúncia rigorosa de si) é o caminho para limpar o karma antigo, os atos que se prendem à alma. O mesmo texto compara o karma de um monge a um tanque cujo abastecimento é cortado. Ele seca, e o karma acumulado em milhões de nascimentos “é aniquilado pelas austeridades”. Os Digambaras (o ramo vestido de céu) guardam outras escrituras, mas também ensinam a libertação pelo próprio esforço da alma.
Jaini escreve que o jainista, que não admite um Deus que age no mundo, não pode se apoiar na fé na graça divina. Tem de contar sobretudo com a sua própria iniciativa e esforço, para as suas necessidades neste mundo e para a sua salvação (p. 89).
“Homem! Tu és o teu próprio amigo; por que desejas um amigo além de ti mesmo?”
“Quem vence a si mesmo por si mesmo obterá a felicidade.”
“Como um grande tanque, quando o seu abastecimento de água é cortado, seca pouco a pouco pelo consumo da água e pela evaporação, assim o Karman de um monge, que ele adquiriu em milhões de nascimentos, é aniquilado pelas austeridades, se não houver influxo de mau Karman.”
Por que os mestres jainistas se afastaram da graça
Os mestres jainistas tinham uma razão para rejeitar a graça. Jaini explica que, nas tradições da Índia que creem em Deus (﷾), a graça é uma mão divina que ergue as almas do renascimento. Os jainistas e outras tradições sramana (de ascetas errantes) viram aí um problema. Um doador da graça teria de ser um ser nunca preso pelo karma. Como poderia tal ser tocar o mundo do renascimento, quando agir nele pertence às almas encarnadas? A resposta do islã é que agir prende uma alma necessitada, e não o Criador, que não precisa de nada (35:15).
Jaini explica por que a tradição jainista se afastou da graça divina. Nas tradições teístas da Índia, a graça é uma mão divina que ergue as almas do renascimento. Para as tradições sramana, entre elas os jainistas, isso criava mais problemas do que resolvia. O doador da graça teria de ser um ser para sempre livre de cativeiro. Mas como poderia um ser que nunca esteve preso tocar ou mover o mundo do renascimento, quando tal ação pertence aos seres encarnados (pp. 135-136)?
“Ó humanos! Vós sois pobres diante de Allah, e Allah é O Bastante a Si mesmo, O Louvável.”
Quem pode cancelar um erro?
O esforço pode fazer muito. Pode impedir que um erro se repita e tornar uma pessoa melhor. Os jainistas conhecem bem o peso de um erro. Todo ano confessam as suas faltas, perdoam todos os seres e pedem a todos os seres que os perdoem. No ensinamento jainista, esses pedidos limpam o coração da raiva, e a alma então se livra do seu karma pelo próprio esforço. Nenhum Deus está acima da conta para perdoar. O islã ensina que cada ato é feito à vista d'Aquele que fez tanto quem o pratica quanto quem é prejudicado. Um erro é como uma dívida, e só aquele a quem ela é devida pode perdoá-la. Então um mal feito a uma pessoa tem de ser reparado com essa pessoa, ou é acertado no Dia do Juízo (Bukhari 2449). O pecado em si é de Deus (﷾) perdoar. O Alcorão diz que as boas obras fazem ir as más obras (11:114), e isso porque Deus (﷾) as fez assim. Deus (﷾) diz: “não vos desespereis da misericórdia de Allah. Por certo, Allah perdoa todos os delitos” (39:53). O versículo seguinte chama as pessoas a se voltarem para Ele (39:54).
Jaini descreve a confissão jainista. Perto do fim do festival de Paryushana, os jainistas leigos confessam as suas faltas e pedem perdão ao seu mestre, à família e aos amigos. Depois perdoam todos os seres e pedem a todos os seres que os perdoem, num verso bem conhecido: peço perdão a todos os seres vivos; que todos eles me perdoem (p. 216). Na meditação chamada samayika, os jainistas de todas as seitas perdoam, e pedem perdão a, todo o mundo dos seres. Crê-se que estes pedidos limpam o coração da raiva e do ressentimento (pp. 223-224).
Jaini escreve que o jainista, que não admite um Deus que age no mundo, não pode se apoiar na fé na graça divina. Tem de contar sobretudo com a sua própria iniciativa e esforço, para as suas necessidades neste mundo e para a sua salvação (p. 89).
Abu Hurayrah relata que o Profeta (ﷺ) disse: quem tiver feito mal a outro, na sua honra ou em qualquer outra coisa, deve pedir-lhe hoje que o livre disso, antes do Dia em que não haverá dinheiro. Se tiver boas obras, elas lhe serão tiradas na medida do mal. Se não tiver, alguns dos maus atos da pessoa prejudicada serão postos sobre ele.
“E cumpre a oração, nos dois extremos do dia e nas primícias da noite. Por certo, as boas obras fazem ir as más obras. Isso é lembrança para os que se lembram de Allah.”
“Dize: “Ó Meus servos, que vos excedestes em vosso próprio prejuízo, não vos desespereis da misericórdia de Allah. Por certo, Allah perdoa todos os delitos. Por certo, Ele é O Perdoador, O Misericordiador.””
“E voltai-vos contritos para vosso Senhor e islamizai-vos, para Ele, antes que o castigo vos chegue, em seguida, não sereis socorridos.”
Ninguém é salvo só pelas obras
O Profeta (ﷺ) disse que as obras de nenhum de vocês os salvarão. Os seus Companheiros perguntaram se isso valia até para ele. Ele disse: nem a mim, a não ser que Allah (﷾) me cubra com a Sua misericórdia. Depois lhes disse que fizessem boas obras como se deve, com sinceridade e moderação (Bukhari 6463). O Sahih Muslim registra o mesmo dito, terminando com a ordem de se manter no que é certo (Muslim 2816a). As suas palavras não eram dúvida sobre o seu próprio fim, pois o Alcorão lhe fala do perdão de Deus (﷾) e da Sua graça completada para com ele (48:2). Ele ensinava que até as melhores pessoas entram no Paraíso pela misericórdia de Deus (﷾). Então o hadith que nega a salvação só pelas obras é ele mesmo uma ordem de fazer o bem. As boas obras são um meio que Deus (﷾) estabeleceu para a Sua misericórdia, e a força para fazê-las também é dom d'Ele. Não são um preço que compra o Paraíso. É por isso que o Alcorão pode dizer “pelo que fazíeis” (16:32). A fé e as boas obras são o modo como um servo busca a misericórdia, e a misericórdia é o que salva.
Abu Hurayrah relata que o Profeta (ﷺ) disse que as obras de ninguém o salvarão. Perguntado se isso o incluía, disse: nem a mim, a não ser que Allah me cubra com a Sua misericórdia. Depois lhes disse que fizessem boas obras como se deve, com sinceridade e moderação.
Abu Hurayrah relata que o Profeta (ﷺ) disse que nenhum de vocês será salvo pelas suas obras. Um homem perguntou: nem tu, Mensageiro de Allah? Ele disse: nem eu, a não ser que Allah me cubra com misericórdia vinda d'Ele; mas mantenham-se no que é certo. A segunda cadeia de Muslim tem “com misericórdia vinda d'Ele e graça”, sem as últimas palavras. O título do capítulo, acrescentado por um editor posterior, diz: ninguém entra no Paraíso pelas suas obras, mas pela misericórdia de Allah.
“Para que Allah te perdoasse o que se antecipou de teu delito e o que se atrasou e que completasse Sua graça para contigo, e te guiasse a uma senda reta,.”
“Aqueles cujas almas os anjos levam, enquanto benignos, dizendo: “Que a paz seja sobre vós! Entrai no Paraíso, pelo que fazíeis””
A misericórdia vem ao encontro do esforço
A misericórdia de Deus (﷾) não espera que uma alma termine a estrada sozinha. Vem ao encontro do esforço da alma. Deus (﷾) multiplica cada boa obra por dez, e conta uma má obra só como uma (6:160). O Profeta (ﷺ) relatou que Deus (﷾) diz: se o Meu servo vem a Mim andando, Eu vou a ele correndo (Bukhari 7405). Para os que se arrependem, creem e fazem o bem, Deus (﷾) troca as suas más obras em boas obras (25:70). Quando Amr ibn al-As veio aceitar o islã, o Profeta (ﷺ) lhe disse que o islã apaga tudo o que veio antes dele (Muslim 121). Cada ato ainda é pesado (99:7-8). A misericórdia não tira nada de ninguém. Ninguém sofre injustiça (6:160), e o direito de toda criatura ainda é devolvido (Muslim 2582).
“Quem chega com a boa ação terá dez vezes seu equivalente, e quem chega com a má ação não será recompensado senão com seu equivalente. E eles não sofrerão injustiça.”
O Profeta (ﷺ) relata que Allah diz: Eu sou como o Meu servo pensa de Mim, e estou com ele quando se lembra de Mim; se ele se aproxima de Mim um palmo, Eu Me aproximo dele um braço, e se ele vem a Mim andando, Eu vou a ele correndo. Também no Sahih Muslim 2675.
“Exceto quem se volta arrependido e crê e faz o bem; então, a esses, Allah trocar-lhes-á as más obras em boas obras. E Allah é Perdoador, Misericordiador,”
Amr ibn al-As, perto da morte, disse que antes do islã ninguém lhe era mais odioso que o Profeta (ﷺ), e ele tinha desejado matá-lo. Contou como veio ao Profeta para aceitar o islã. Pediu ao Profeta que estendesse a mão direita para que ele pudesse jurar fidelidade, e depois recolheu a própria mão. Perguntado por quê, disse que queria uma condição: ser perdoado. O Profeta perguntou se ele não sabia que o islã apaga tudo o que veio antes dele.
“Então quem houver feito um peso de àtomo de bem o verá, E quem houver feito um peso de átomo de mal o verá.”
Abu Hurayrah relata que o Profeta (ﷺ) disse: no Dia da Ressurreição todo direito será devolvido a quem pertence, a ponto de até a ovelha sem chifres cobrar o que lhe é devido da ovelha com chifres.
| Pergunta | O ensino jainista | O islã |
|---|---|---|
| Quem liberta a alma | A própria alma, pelo seu esforço. | A misericórdia de Deus (﷾), que vem ao encontro do esforço. |
| Os atos | A austeridade limpa o carma antigo. | O peso de cada átomo é visto, e uma boa ação conta dez vezes. |
| Um erro | Nenhum Deus está acima da conta para perdoar. | Deus (﷾) perdoa os pecados. Um erro contra uma pessoa se resolve com essa pessoa. |
| O objetivo mais alto, agora | A onisciência completa já não é possível nesta era. | O perdão está aberto agora, para quem se volta para Ele. |
Mesmo no ensinamento jainista, a estrada é longa
No ensinamento jainista, um Jina, um dos mestres que alcançaram a onisciência, encontra a estrada sem mestre. Os seus seguidores são diferentes. Jaini nota que eles não alcançariam a libertação sem a ajuda do Jina como mestre. Paul Dundas, um historiador do jainismo, acrescenta outro ponto. Os jainistas passaram a sustentar que as realizações mais altas, entre elas a onisciência completa, já não são possíveis nesta era. Então a prática jainista hoje também visa o mérito para um renascimento melhor. A oferta do islã é diferente. Há uma só vida, e o perdão de Deus (﷾) está aberto nela, agora, a todo aquele que se volta para Ele (39:53-54).
Jaini escreve que as pessoas comuns precisam de um guru para começar a vida de monge, mas o futuro Jina não precisa de mestre. Renuncia ao mundo por si mesmo e se torna o primeiro monge de uma nova ordem (pp. 3-4).
Jaini observa que os seguidores de um Jina também podem alcançar a onisciência e assim a libertação. São chamados kevalin ou arhat, não Jina. Acrescenta que, sem a ajuda do Jina, eles não teriam alcançado um estado tão alto (p. 31, nota 69).
Dundas escreve que, por volta do início da era comum, os jainistas reconheciam que uma variedade de realizações espirituais avançadas, das quais a iluminação (a onisciência completa) era uma, já não eram possíveis nesta era depois da morte do discípulo Jambu. A prática religiosa passou então a visar não só queimar o carma, mas também, cada vez mais, ganhar mérito para um bom renascimento (capítulo 6, primeira página, p. 94).
“Dize: “Ó Meus servos, que vos excedestes em vosso próprio prejuízo, não vos desespereis da misericórdia de Allah. Por certo, Allah perdoa todos os delitos. Por certo, Ele é O Perdoador, O Misericordiador.””
“E voltai-vos contritos para vosso Senhor e islamizai-vos, para Ele, antes que o castigo vos chegue, em seguida, não sereis socorridos.”
A resposta do islã: o esforço, sustentado pela misericórdia
A resposta do islã é que o seu esforço conta, e a misericórdia de Deus (﷾) o sustenta. Aquele que fez você vê cada ato e perdoa quem se volta para Ele. Ele cria pela Sua ordem, “Sê”, e é (2:117), e nada é igual a Ele (42:11). O islã é um modo de vida completo, com fé, adoração e conduta juntas (2:208; 5:3). O Alcorão pede para ser posto à prova. O seu desafio é produzir uma sura (capítulo) igual a ele (2:23) e procurar discrepâncias nele (4:82). Se ele é palavra de Deus (﷾), então Muhammad (ﷺ) é o selo dos Profetas, o último deles (33:40). Leia-o, e pese a mensagem dele por si mesmo.
“Ele é O Criador Primordial dos céus e da terra, e, quando decreta algo, apenas, diz-lhe: “Sê”, então, é.”
“Ele é O Criador dos céus e da terra. Ele vos fez, de vós mesmos, casais, e dos rebanhos, casais; com isso, multiplica-vos. Nada é igual a Ele. E Ele é O Oniouvinte, O Onividente.”
“Ó vós que credes! Entrai na Paz, todos vós, e não sigais os passos de Satã. Por certo, ele vos é inimigo declarado.”
“Hoje eu completei vossa religião para vós e completei Minha graça para convosco e agradei-Me do Islam como religião para vós.”
“E se estais em dúvida acerca do que fizemos descer sobre Nosso servo, fazei vir uma sura igual à dele, e convocai vossas testemunhas, em vez de Allah, se sois verídicos”
“E não ponderam eles o Alcorão? E, fosse vindo de outro que Allah, encontrariam nele muitas discrepâncias.”
“Muhammad não é pai de nenhum de vossos homens, mas o Mensageiro de Allah e o selo dos Profetas. E Allah, de todas as cousas, é Onisciente.”
Cinco réplicas, respondidas
Uttaradhyayana Sutra 30.5-6 — lição 30 (O caminho da penitência), versos 5-6
“Como um grande tanque, quando o seu abastecimento de água é cortado, seca pouco a pouco pelo consumo da água e pela evaporação, assim o Karman de um monge, que ele adquiriu em milhões de nascimentos, é aniquilado pelas austeridades, se não houver influxo de mau Karman.”
Citado para
A austeridade queima o karma antigo, então uma alma pode limpar o próprio passado sem o perdão de Deus.
A resposta
A austeridade pode mudar quem a pratica, e os jainistas pedem perdão aos seres que feriram. Mas ninguém pode cancelar a própria dívida. Um mal feito a uma pessoa tem de ser reparado com essa pessoa, ou é acertado no Dia do Juízo (Bukhari 2449). O pecado em si é de Deus (﷾) perdoar. As boas obras fazem ir as más obras (11:114) porque Deus (﷾) as fez assim. Ele perdoa todos os delitos aos que se voltam para Ele (39:53; 39:54).
Onde fica — O esforço pode reformar quem o faz. Uma dívida é cancelada por aquele a quem é devida, e todo pecado por Deus (﷾).
Jaini, The Jaina Path of Purification (O caminho jainista da purificação, 1979), pp. 135-136
Jaini explica por que a tradição jainista se afastou da graça divina. Nas tradições teístas da Índia, a graça é uma mão divina que ergue as almas do renascimento. Para as tradições sramana, entre elas os jainistas, isso criava mais problemas do que resolvia. O doador da graça teria de ser um ser para sempre livre de cativeiro. Mas como poderia um ser que nunca esteve preso tocar ou mover o mundo do renascimento, quando tal ação pertence aos seres encarnados (pp. 135-136)?
Citado para
Um ser para sempre livre do karma nunca poderia agir no mundo do renascimento, então a graça é impossível.
A resposta
Isso vale para uma alma num corpo, que age porque deseja e lhe falta algo. O Deus (﷾) do islã não é tal alma. Ele é o Criador de todas as coisas, e nada é igual a Ele (42:11). É “O Bastante a Si mesmo” (35:15), e traz as coisas à existência pela Sua ordem, “Sê”, e é (2:117). Age por misericórdia e sabedoria, e não por necessidade, então agir na Sua própria obra não O prende.
Onde fica — Agir prende uma alma necessitada. Não prende o Criador, que não precisa de nada.
Acaranga Sutra 1.3.3.4 — livro 1, lição 3 (O quente e o frio), parte 3, verso 4
“Homem! Tu és o teu próprio amigo; por que desejas um amigo além de ti mesmo?”
Citado para
Sou o meu próprio amigo. Por que deveria procurar um amigo além de mim mesmo?
A resposta
Mesmo no ensinamento jainista, os seguidores do Jina aprendem a estrada com o seu ensinamento. Mas um mestre só mostra a estrada. Não pode perdoar o que foi feito nela. A resposta do islã é Aquele que fez a alma. Ele diz que, se o Seu servo vem a Ele andando, Ele vai a ele correndo (Bukhari 7405). Perdoa todos os delitos aos que se voltam para Ele (39:53-54).
Onde fica — Um mestre mostra a estrada. Só o Criador da alma pode perdoar, e Ele vem ao encontro de cada passo.
Uttaradhyayana Sutra 13.23 — lição 13 (Citra e Sambhuta), verso 23
“Nem os seus parentes, nem os seus amigos, nem os seus filhos, nem os seus familiares partilharão o seu sofrimento; só ele tem de suportá-lo; pois o Karman segue quem o pratica.”
Citado para
A misericórdia é injusta. Uma conta rigorosa deveria dar a cada alma exatamente o que ela ganhou.
A resposta
No islã, ninguém é castigado além do seu ato, e nenhuma boa obra se perde (99:7-8). Deus (﷾) diz que ninguém sofrerá injustiça (6:160). Perdoar o que Lhe é devido é direito d'Ele, como qualquer credor pode cancelar uma dívida. O que uma criatura deve a outra é pago por inteiro no Dia do Juízo. O Profeta (ﷺ) disse que até a ovelha sem chifres cobrará o que lhe é devido da ovelha com chifres (Muslim 2582).
Onde fica — Ninguém sofre injustiça. A misericórdia de Deus (﷾) renuncia ao que Lhe é devido, e o direito de toda criatura é devolvido.
Sahih al-Bukhari 6463 — Kitab al-Riqaq (O abrandamento do coração), hadith 6463
Abu Hurayrah relata que o Profeta (ﷺ) disse que as obras de ninguém o salvarão. Perguntado se isso o incluía, disse: nem a mim, a não ser que Allah me cubra com a Sua misericórdia. Depois lhes disse que fizessem boas obras como se deve, com sinceridade e moderação.
Citado para
Se ninguém é salvo pelas suas obras, então as obras não importam no islã.
A resposta
O mesmo hadith continua logo ordenando boas obras, feitas como se deve, com sinceridade e moderação. O Sahih Muslim dá o mesmo dito com “mantenham-se no que é certo” (Muslim 2816a). O Alcorão diz que cada peso de um átomo de bem será visto (99:7-8). As obras são o modo como um servo busca a misericórdia. Não são um preço que compra o Paraíso.
Onde fica — As obras são ordenadas e pesadas. A misericórdia, e não um preço pago, é o que salva.
Perspectivas
Jainista: cada alma liberta a si mesma
O ensinamento jainista sustenta que nenhum deus liberta a alma. Cada alma é a sua própria amiga. Detém o karma novo pela contenção e queima o karma antigo pela austeridade, até ficar livre. A graça de fora não é necessária nem possível.
“Homem! Tu és o teu próprio amigo; por que desejas um amigo além de ti mesmo?” (Acaranga Sutra 1.3.3.4, Svetambara). Ninguém fora da alma pode libertá-la.
Réplica
O próprio ensinamento jainista diz que os seguidores do Jina não alcançariam a libertação sem o seu ensinamento. Mas um mestre só pode mostrar a estrada. Não pode perdoar o que foi feito nela. O islã aponta para Aquele que fez a alma, a ouve (42:11) e perdoa todos os delitos aos que se voltam para Ele (39:53).
A austeridade aniquila o karma acumulado em milhões de nascimentos, como um tanque seca quando o seu abastecimento é cortado (Uttaradhyayana Sutra 30.5-6, Svetambara). Então uma alma pode limpar o próprio passado.
Réplica
A austeridade pode mudar quem a pratica. Mas ninguém pode cancelar a própria dívida; só aquele a quem ela é devida pode. As boas obras fazem, sim, ir as más obras (11:114), porque Deus (﷾) as fez assim. Ele perdoa todos os delitos aos que se voltam para Ele (39:53-54).
Um doador da graça teria de ser um ser nunca preso pelo karma. Tal ser não poderia tocar o mundo do renascimento (Jaini, sobre as tradições sramana). Então a graça é impossível.
Réplica
A objeção trata o agir como sinal de necessidade, como é para uma alma num corpo. Deus (﷾) não é uma alma no mundo. Ele o fez, não precisa de nada dele (35:15), e nada é igual a Ele (42:11). Age por misericórdia e sabedoria, e não por necessidade.
Se a graça salva, então o esforço é inútil e as obras já não importam.
Réplica
O próprio hadith que diz que ninguém é salvo só pelas obras continua ordenando boas obras, feitas como se deve, com sinceridade e moderação (Bukhari 6463). Cada ato é pesado (99:7-8).
A misericórdia é injusta. Se alguns são perdoados, a conta rigorosa dos atos de cada alma se quebra.
Réplica
Ninguém é castigado além do seu ato (6:160), e nenhum bem se perde (99:7-8). Deus (﷾) pode renunciar ao que Lhe é devido. O direito de toda criatura ainda é devolvido, até o de um animal (Muslim 2582).
A perspectiva islâmica
O esforço é ordenado e cada ato é pesado. Mas ninguém é salvo só pelas obras: a misericórdia de Deus (﷾) salva, e a fé e as boas obras são o modo como um servo a busca. O perdão é de Deus (﷾) dar, e Ele multiplica cada boa obra. A Sua porta fica aberta, enquanto dura a vida, a todos os que se voltam para Ele.
Cada ato até o peso de um átomo é visto, e Deus (﷾) não impõe a nenhuma alma além da sua capacidade. Os justos entram no Paraíso pelo bem que fizeram.
O Profeta (ﷺ) disse que as obras de ninguém o salvarão, nem as dele mesmo, a não ser que Allah (﷾) o cubra com a Sua misericórdia. Depois ordenou boas obras feitas como se deve, com sinceridade e moderação.
Deus (﷾) multiplica as boas obras por dez, conta o mal só como um, e não faz injustiça a ninguém. Vem correndo ao servo que vem andando.
Deus (﷾) perdoa todos os delitos aos que se voltam para Ele, e troca as más obras dos que se arrependem em boas obras. O islã apaga o que veio antes dele.
As obras são um meio pelo qual um servo busca a misericórdia de Deus (﷾), e não um preço que compra o Paraíso.
Deus (﷾) é o Criador, diferente de tudo o que fez, que traz as coisas à existência pela Sua ordem. O Alcorão convida todos a pô-lo à prova, e chama Muhammad (ﷺ) de selo dos Profetas.